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ANP – Agência Nacional de Petróleo
"Mecanismos de Estímulo ao Suprimento Nacional no Setor de Petróleo"

Comentários da
ABCE – Associação Brasileira de Consultores de Engenharia

1- Introdução

A ABCE, representando as empresas de consultoria de engenharia, expressa o seu reconhecimento pela iniciativa e trabalho da ANP, orientado para criar condições de efetiva participação da engenharia brasileira dos setores de bens e serviços no futuro cenário do setor de óleo e gás no paí

Como se afirma, no documento preparado pela Agência, a ANP atua como instrumento do governo para a consecução dos seus objetivos, com destaque para o apoio ao fortalecimento da indústria nacional de bens e serviços.

A ABCE reconhece o valor do trabalho realizado pela equipe de consultores da PUC-RJ, um esforço de chegar a um diagnóstico do setor, com proposições precisas para que aqueles objetivos sejam atingidos.

A atuação da consultoria de engenharia no campo da indústria do petróleo no Brasil teve início na década de 60 e se desenvolveu até um nível apreciável de suficiência, conduzido pela Petrobrás, ampliando-se o número de empresas atuantes no setor até a década de 80. Ultimamente, o quadro empresarial está reduzido em sua capacidade operacional, mas algumas empresas mantêm íntegra a sua estrutura técnica e gerencial nuclear, em condições de retomar, a curto prazo, os espaços perdidos.

A ABCE, representando a engenharia brasileira de projetos e gerenciamento, refletindo o pensamento das empresas nela congregadas, considera necessário e urgente criarem-se mecanismos e instrumentos que permitam às empresas e aos profissionais, crescerem em capacitação e eficiência.

A "crise" da engenharia consultiva não é um fenômeno brasileiro. É uma crise mundial. A engenharia de quase todos os países, inclusive a dos países industrializados, sofreu os efeitos de certos aspectos da globalização.

A diferença é que, nos países mais desenvolvidos, os governos e o setor privado têm reconhecido o valor e a importância estratégica do conhecimento aplicado à tecnologia, função da consultoria de engenharia. Assim, criaram mecanismos de apoio ao setor que se traduzem em três principais vetores:

  • oportunidade de trabalho e realização contínua de serviços: a continuidade é fundamental;

  • condições economico-financeiras justas para a realização dos serviços; a qualidade técnica dos serviços é condicionada à sua justa remuneração;

  • apoio ao desenvolvimento técnico e tecnológico nacional, que inclui o estímulo às parcerias entre centros de pesquisas, universidades e empresas/organizações da engenharia, com vistas ao aumento da competitividade e eficiência do setor.

Por outro lado, o gerenciamento de empreendimentos de grande vulto e complexidade, como usinas hidrelétricas, siderúrgicas, etc. é plenamente dominado pelas empresas nacionais, as quais também trabalham apoiando a Petrobrás no setor de óleo e gás. Em tese, portanto, a capacitação nacional é plena. A ABCE, contudo, entende ser esta uma área sensível para as empresas Operadoras que virão se instalar no país, e assim, recomenda que não se deixe este segmento fora da nova política de contratação.

Finalmente, desejamos consignar que a Construção Naval, como salientado no documento, realmente exerce um importante efeito de arraste. Contudo, o documento deveria contemplar o efeito de indução igualmente importante proporcionado pelas empresas de consultoria de engenharia nacional (gerenciamento e projeto) na cadeia produtiva que vem à jusante (todos os fornecedores de bens e serviços). Por esta razão muitos países do 1º mundo têm instituições que financiam (às vezes a fundo perdido) os serviços de consultoria de engenharia no exterior, porque esses propiciam melhores condições de competição para seus fornecedores.


 

2 - Competitividade das Empresas de Engenharia e Consultoria Nacional para o Setor de Petróleo.

2.1.- Histórico

Para um melhor entendimento da participação efetiva das Empresas de Engenharia e Consultoria no crescimento do Setor de Petróleo Brasileiro, podemos dividí-lo em três fases:

 

1a. Fase - Primeiras Plataformas Fixas na Bacia de Campos - 1979


    • Plataformas :

- Namorado 1

- Namorado 2

- Cherne 1

- Cherne 2

- Pampo

- Garoupa

- Enchova


    • Projeto Básico - contratado de Empresas Estrangeiras com transferência de tecnologia para Empresas Nacionais;

    • Gerenciamento/Supervisão/Coordenação Geral – realizados pelo SEGEN da Petrobrás;

    • Projeto de Detalhamento - desenvolvido 100% por Empresas Nacionais com consultoria das empresas estrangeiras;

    • Grande assimilação pela Empresas Nacionais das tecnologias apresentadas tanto na área de engenharia quanto nas áreas de construção e montagem em terra e mar e nas operações marítimas.

 

2a. Fase - Polo Nordeste - 1984

 

    • Plataformas :

- Pargo 1 A/B

- Vermelho 1

- Vermelho 2

- Vermelho 3

- Carapeba 1

- Carapeba 2


    • Projeto Básico - realizado pela Petrobras - CENPES, com a participação de algumas Empresas de Engenharia Privadas Nacionais;

    • Projeto de Detalhamento - realizado 100% pelas Empresas de Engenharia Privadas Nacionais;

    • Gerenciamento/Supervisão/Coordenação Geral, realizados pelo SEGEN da Petrobrás;

    • Empreendimento realizado com 100% da tecnologia e Engenharia nacionais.


3a. Fase - Unidades Flutuantes de Produção - 1990

Esta é uma das mais importantes fases da participação da Engenharia Nacional no mercado de exploração e produção de Petróleo do país, pelos seguintes motivos:

    • "Início" de exploração/produção em águas profundas

    • Concorrências "Internacionais" realizadas pela Petrobras.

    • Globalização

    • Mercado Interno Recessivo

    • Empresas com recursos escassos para treinamento e desenvolvimento

    • Linhas de crédito para treinamento e desenvolvimento difíceis e "caros"

Apesar de todo este cenário as Empresas de Engenharia Privadas Nacionais tiveram uma participação efetiva nestes empreendimentos. Na Tabela 3 - "Construção por EPC de Unidades de Produção da PETROBRAS", apresentado no trabalho da ANP, constatamos que das 13 Unidades listadas a Engenharia Privada Nacional está presente em 9, o que representa uma participação de aproximadamente 70%.

Quanto ao gerenciamento/supervisão/coordenação geral, como nas fases anteriores, ficou a cargo do SEGEN.

Projetos realizados por Empresas de Engenharia Nacionais

Unidade

Tipo

Campo

Main Contractor

País Estaleiro

Valor (US$ milhões)

Engenharia

P-19 Treasure Stawinner

SS

Marlim

IVI

Brasil

170(*)

Brasil

P-25 Zapata Artic

SS

Albacora

Ultratec

Brasil

116

Brasil

P-26 

Iliad

SS

Marlim

Tenenge Ultratec

Espanha

200(*)

Brasil

P-27 Penrod 71

SS

Voador

Fels (Singapura)

Singapura

120(*)

Exterior

P-31 

Vidal Negreiros

FPSO

Albacora

IVI

Brasil

300

Brasil

P-32 Cairú

FSO

Marlim

Astano (Espanha)

Espanha

100

Brasil

P-33 Henrique Dias

FPSO

Marlim

Hyundai (Coréia)

Coréia

160

Exterior

P-35

José Bonifácio

FPSO

Marlim

Hyundai (Coréia)

Coréia

200

Exterior

P-36 Spirit of Columbus

SS

Roncador

Maritima

Canadá

350(*)

Exterior

P-37 Friendship

FPSO

Marlim

Marítima

Singapura

290(*)

Brasil

P-38 World Eminence

FSO

Marlim

Mitsubishi (Japão)

Singapura

150(*)

Brasil

P-40 

DB-100

SS

Marlim

Mitsubishi (Japão)

Singapura

330(*)

Brasil

P-47 Eastern Strenght

FSO

Roncador

Astano (Espanha)

Espanha

130(*)

Brasil

Fonte: Prospettiva (*) inclui valor da plataforma

 

2.2 - Conclusão

Esta participação expressiva do segmento de Engenharia no Setor de Petróleo, até nestes ultimos Empreendimentos, envolvidos por toda natureza de adversidades, não deve ser considerada como inexistência de crises e problemas no segmento de Engenharia.

Pelo contrário as dificuldades são inumeras,sendo esta presença vista como um produto final do trabalho, da confiança, da parceria e do conhecimento do pensamento / idéias do nosso único cliente final (PETROBRAS), adquiridos ao longo de mais de 25 anos, trabalhando em conjunto para o desenvolvimento desta área de Produção.

Desta forma para que as Empresas Associadas da ABCE possam conquistar a sua parcela de serviços frente aos novos Exploradores / Operadores de Petróleo no Brasil, num ambiente de mercado muito mais competitivo, agressivo e globalizado, a ABCE entende e propõe ações concretas para estimular a contratação de serviços de Engenharia no Mercado Nacional, no sentido de se preservar e ampliar todo o conhecimento tecnológico adquirido ao longo destes anos no setor de produção de petróleo.


3 - Propostas da ABCE

I - Critérios Técnicos para Orientar a Política do Setor

A ABCE considera que os valores a seguir poderão servir como referência para contratação de serviços de Engenharia Privada Nacional. Estes valores referem-se a serviços integralmente executados no Brasil:


I.1 - Engenharia de Projeto

I.1.1 - Unidades de Produção


a) Plataformas fixas Jaquetas 

projeto básico e detalhamento – 100% no Brasil

Facilidades de produção

projeto básico - 100% no Brasil

projeto de detalhamento - 100% no Brasil

b) Semi-submersíveis

Projeto Conceitual

20% no Brasil

Parte Naval 

Projeto Básico

30% no Brasil

Projeto de Detalhamento

80% no Brasil

Projeto Básico 

100% no Brasil

Parte Facilidades de Produção

Projeto de Detalhamento

100% no Brasil

c) FPS ou FPSO

Parte Naval 

Projeto Básico

90% no Brasil

Projeto de Detalhamento

100% no Brasil

Projeto Básico 

100% no Brasil

Parte Facilidades de Produção

Projeto de Detalhamento

100% no Brasil

d) TLP e SPAR

Projeto Básico

20% no Brasil

Projeto de Detalhamento do casco (*)

50% no Brasil

Projeto Básico 

100% no Brasil

Parte Facilidades de Produção

Projeto de Detalhamento

100% no Brasil

Projeto de Detalhamento das Facilidades de Produção - 100% no Brasil

(*) com assistência Técnica estrangeira no Projeto Básico


I.1.2 - Obras Submersas (subsea engineering)

Incluindo "risers", "bundles", "manifolds", "templates", sistemas de controle, dutos submersos.

Projeto Básico - 20% no Brasil

Projeto de Detalhamento(*) - 50% no Brasil

(*) Com Assistência Técnica estrangeira no Projeto Básico e no Gerenciamento.


I.1.3 - Poço

Será um crescimento progressivo como se segue:

- 1o ao 5o anos - participação de 5%

- acima de 5 anos - participação de 10% incluindo estudos de recuperação e logística de perfuração


I.2 – Gerenciamento

Em função de sua capacitação as Empresas de Consultoria de Engenharia podem colaborar na implantação e gerenciamento dos empreendimentos em um percentual médio de 50%.


I.3 – Serviço de Geofísica

 
  • Engenheiros brasileiros de aquisição de dados a bordo 3/turno/navio.

  • processamento de dados - técnicos brasileiros nos centros de computação 5 /turno/centro

  • Centros de computação - existentes no Brasil.


I.4 – Outros Serviços Correlatos


Outros itens que podem ser feitos no Brasil numa porcentagem de 80% a 100% em:

valor e em moeda nacional;

Load-outs (projeto e execução);

Livros de instrução e procedimentos de operação;

Análise de risco;


 

EIA - RIMAS

Processamento de dados meteorológicos e de sondagens batimétricas e geológicas;

Procedimentos de controle de peso;

Proteção superficiais - pinturas e proteção anticorrosivas;

Salvatagem;

Rotas de fuga;

Operação de transporte e lançamento de jaquetas (projeto);

Obs.: Critérios de Projetos para a parte onshore e exploração na selva.

  • Inspeção e recebimento de equipamentos;

  • Comissionamento;

  • Vistorias;

Etc.

Critérios análogos aos de Offshore, mas com ressalvas para processos patenteados de qualquer natureza.


I.5 - Metodologia

a) Para projetos correntes, i.e. de tecnologia conhecida e provada:

Para o projeto básico, inicialmente promover-se-á a constituição de consórcios entre firmas projetistas independentes (filiadas à ABCE), e congêneres estrangeiras, ou o próprio CENPES, para fins de incentivo à utilização e aumento da capacitação nacional.

Os valores citados, são válidos para os 3 primeiros anos, sendo revistas a partir daí de 2 em 2 anos.

b) Para projetos novos, ou seja de novas fronteiras tecnológicas:

Para projeto básico, propõe-se a constituição de "Joint Industry Studies", onde várias firmas participam do mesmo, para desenvolver uma determinada tecnologia, dirigida normalmente por uma firma de consultoria independente, brasileira ou não.

A partir daí a tecnologia é de propriedade dos participantes, mas poderia ser vendida a terceiros sem restrição.

A ANP regulará os "Joint Industry Studies" e poderá financiar as firmas brasileiras com juros incentivados até se constituir a Instituição Mobilizadora.


II – Quanto aos aspectos financeiros

Garantia de financiamento em reais, como forma de assegurar a participação da Engenharia Consultiva em investimentos liderados por Operadores estrangeiros, privados ou não. Tais financiamentos deverão ser liderados por FINEP/BNDES e ter seus custos compatíveis com o mercado internacional.


III – Quanto aos modelos de EPC

Que seja organizado um "workshop" com a participação da ANP e das diversas associações para debate de todos os conceitos e princípios inseridos no contexto do modelo EPC.


IV – Quanto à Competitividade

IV.1 Aspectos tributários/fiscais

  • Isenção de impostos para aquisição de hardware e software para a Engenharia Consultiva da indústria de petróleo, bem como para equipamentos nacionais similares.

  • Na aquisição de tecnologia por parte de Empresa de Engenharia genuinamente brasileira, isenção de IOF e IRRF na importação destes serviços.

  • As receitas na área "offshore" terem o mesmo tratamento fiscal que a exportação de serviços, a fim de se assegurar a equalização com empresas estrangeiras.


IV.2 Custo do trabalho

Sejam criados mecanismos de contratação de mão-de-obra que conduzam à isonomia com os outros centros de competição, principalmente no que se refere aos Encargos Sociais e Trabalhistas.


IV.3 Treinamento e desenvolvimento tecnológico

  • Propiciar financiamento a baixo custo para treinamento de pessoal e desenvolvimento de processos produtivos.

  • Incluir a ABCE no grupo que definirá a aplicação das receitas que, conforme relatório da ANP, serão destinadas a programas P&D.


V -Instituição Mobilizadora (I.M.)

Como proposta nos preocupa a sua estruturação, organização e operacionalização. Para atender às ações necessárias de curto prazo, a proposta é constituir-se de imediato um núcleo composto por entidades do governo e das classes empresariais dos setores de bens e serviços.

Como medida imediata, antes da emissão dos Editais, a ABCE considera como fundamental a constituição de uma Comissão Especial a ser definida e integrada por entidades privadas representativas, que consolide este trabalho e assessore a ANP na elaboração das cláusulas dos primeiros Editais.

 

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