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A Consultora como indutora de negócios  Angelo Vian

A empresa de consultoria tem estado historicamente a reboque de iniciativas do Estado e de empreendedores privados. São esses os agentes que convocam a consultora para buscar soluções de engenharia e arquitetura para os seus empreendimentos.
As mudanças profundas no mercado, com a drástica redução dos investimentos públicos, e o surgimento de novos atores privados não habituados ao uso da consultoria na orientação de seus investimentos, estabelecem uma crise sem precedentes no setor.
Mas toda crise traz consigo ameaças e oportunidades. O desafio diante  da crise é saber neutralizar as ameaças e aproveitar as oportunidades.
Neste novo cenário, a consultora descobre o seu potencial para a geração de negócios, através de parcerias inovadoras, aprendendo a assumir o papel de protagonista na formação de grupos capazes de
viabilizar empreendimentos  privados ou concessões de serviços públicos.
Cabe indagar se as empresas estão preparadas para exercer esses novos  papéis.
No Brasil as décadas  de 70 e 80 foram caracterizadas por uma profunda se não total influência do Estado na condução da economia do Pais.
O Estado se considerava responsável pela satisfação dos anseios da sociedade brasileira e se identificava como empreendedor "titular" nos  diversos setores da economia, verdadeiro e praticamente único "indutor" dos "negócios" no país.
O "Governo" empreendedor tomava todas as decisões estratégicas e determinava o que deveria ser realizado e como deveria ser executado.
As Empresas Consultoras eram incumbidas de apresentar as mais apuradas  soluções tecnológicas para a realização dos empreendimentos, sendo, na maioria dos casos, reconhecidas nos contratos despesas com treinamento
e atualização dos seus técnicos, ou aceitos adicionais de custos para  parcerias com empresas detentoras das tecnologias necessárias.
Naquela época, então, as Consultoras tinham um papel somente secundário na definição do empreendimento enquanto negócio, mas tinham todas as condições de realizar os projetos básicos e de detalhamento baseados nas mais atualizadas  e apuradas técnicas internacionais.
Como resultado o Brasil chegou à segunda metade da década de '80 com  um parque de Empresas de Consultoria altamente capacitadas tecnicamente, mas totalmente dependentes dos "gordos” contratos com o
Estado e suas organizações. Mostravam-se entretanto bastante carentes, na sua maioria, do espirito empresarial necessário para assumir iniciativas em um cenário diferente, no qual o Estado não se apresentasse mais como empreendedor.
Por outro lado as distorções não tardaram a aparecer: Do lado das organizações governamentais, as distorções começaram a se manifestar quando as empresas estatais tentaram ocupar o espaço das consultoras conseguindo seduzir os seus melhores técnicos, sobretudo na base da tão ambicionada estabilidade de emprego e dos benefícios
indiretos propiciados pelas Fundações generosas e maternais por elas  mesmas criadas.
Do lado das consultoras as distorções se manifestaram no crescimento exagerado das estruturas administrativas e na perda de objetividade na condução dos projetos; o interesse de venda dos "pacotes" de homens-horas se sobrepôs ao objetivo primário da realização de projetos, como produtos técnicos da melhor qualidade.
Ambos os lados perderam: as estatais não substituíram as consultoras e as consultoras ficaram desfalcadas, empobrecidas, e muitas vezes até mesmo desacreditadas.
Muitas estatais, infladas e naturalmente pouco eficientes, perderam o rumo da objetividade técnica, inclusive devido a tendência de privilegiar objetivos "politicos" que predominou nas suas administrações.
Neste quadro, pressionado por dívidas impagáveis, sem mais recursos disponíveis e com as fontes de captação totalmente exauridas, o Estado se retirou do seu papel de empreendedor pelo menos nos mais importantes setores industriais, começando pela Siderurgia, logo pela
Petroquímica, Telecomunicações, Energia Elétrica, Petróleo & Gás etc.
As consultoras brasileiras precisaram repensar o seu papel neste novo contexto, de braços com outros atores, associando-se a investidores e empreendedores e com outros desafios a serem vencidos além da necessária recomposição da capacitação técnica nos seus campos de atuação.
De fato todos podem observar o quanto são profundas as mudanças no cenário da atuação da Consultoria de Engenharia..
O setor público representava cerca de 80% do seu mercado e não exigia das Empresas de Engenharia ações pro-ativas de busca de contratos.
A  rotina tinha sido, nas últimas décadas, o acompanhamento atento da publicação de editais, e o preparo de propostas para participar de licitações públicas.
No novo cenário, os serviços contratados pelo setor público tendem a ser de natureza diferente, inclusive porque o papel do Estado é agora essencialmente diferente.
De empreendedor e indutor de negócios, o Estado passa a atuar mais como regulador ou, no máximo, como indicador de oportunidades, sem interferir no processo de viabilização dos investimentos e sem diretamente participar dos mesmos, se não através dos seus órgãos financeiros de fomento.
Nesse novo cenário, surgem, então, novas oportunidades de atuação para as Empresas Consultoras no setor público, até então inexistentes ou pouco desenvolvidas: o preparo de processos de privatização e concessões, o monitoramento de desempenho das concessionárias e o gerenciamento de programas de governo. Os órgãos públicos finalmente
descobriram que, em nome da eficácia, eficiência e objetividade, é melhor contratar essas atividades com empresas privadas, inclusive para neutralizar, a nível operacional, perniciosas influências políticas.
No setor privado, Consultoras passam a prestar serviços para empresas agora privatizadas e para concessionárias de serviços públicos.
Mas o setor privado não publica editais. Em geral o setor privado aceita “boas propostas para bons negócios".
Não quer perder nem dinheiro nem tempo e, sobretudo, não quer perder de vista aquele que é o seu objetivo, o seu "core business".
Ao setor privado interessa o "fim". Os meios são analisados somente para se ter certeza de que o "fim" será alcançado com a economia e confiabilidade previstas.
Se possível, o setor privado quer participar do "negócio" em uma fase em que este seja já bastante avançado na sua elaboração, para reduzir os custos e os riscos do seu envolvimento.
Em outras palavras, em principio, o setor privado  quer ser o "indutor" do "negócio" somente no sentido de explicitar as suas necessidades e exigências, identificando no máximo os parâmetros funcionais considerados satisfatórios e definindo claramente as responsabilidades, mas evitando, o quanto possível, assumir o papel de empreendedor contratante, exercitado antes pelo Estado.
Abre-se um possível novo espaço para as consultoras brasileiras, espaço que as mais qualificadas consultoras do primeiro mundo já estão ocupando faz tempo.
As Empresas de Engenharia são desafiadas a desenvolver ações de marketing e prospeção de mercados a que não estavam habituadas.
Torna-se indispensável uma postura pro-ativa. A empresa tem que tomar a iniciativa de identificar oportunidades não anunciadas, apresentar-se, demonstrar de forma criativa a sua capacidade para atender plenamente ao cliente potencial. Terá que criar uma relação de confiança que em grande parte se funda no relacionamento interpessoal,
o que é dispensável na fria relação que se estabelece no simples atendimento à convocação de um edital de licitação.
Visando o "negócio", tem que ser encontrada, organizada e apresentada uma solução integrada considerando todos os aspectos envolvidos: técnicos, financeiros, econômicos, institucionais, operacionais etc..
Nascem soluções B.O.T, B.O.O. e outras mais ou menos equivalentes.
Quando o cliente privado contrata, não costuma contratar como o fazia o setor público. Não contrata um projeto para depois contratar a execução das obras. Prefere comprar pacotes.
Quer o seu empreendimento pronto, em funcionamento, com operadores treinados e garantia de manutenção. Tornam-se comuns os contratos do tipo “turn-key”.
Na maioria dos casos são necessários parceiros para viabilizar esses empreendimentos. Surgem então oportunidades de associações de Empresas de Consultoria com empresas de outros setores, construtoras, investidores, financiadores que, parceiros no negócio, constituem a cadeia produtiva necessária para viabilizar um empreendimento e inclusive assumir os riscos do mesmo.
Abre-se neste ponto a discussão sobre a partilha das responsabilidades e riscos.
A Consultora não tem patrimônio compatível com o porte dos empreendimentos, mas a boa ou má qualidade dos seus projetos ou gerenciamento é decisiva para o êxito ou fracasso do negócio, ou mesmo por acidentes decorrentes de erros de projeto. A questão dos seguros de performance ainda está mal resolvida para esse tipo de participação
e parceria da Empresa de Engenharia.
Abrem-se, nesta nova configuração da atividade da Consultora, a oportunidade, às vezes vantajosa, das parcerias com empresas de Consultoria estrangeiras, sejam Consultoras, sejam empresas de outros setores ou investidores. Nessas parcerias podem ser estabelecidos mecanismos eficientes de transferência e absorção de novas tecnologias, em muitos casos de mão dupla. De fato o domínio da base tecnológica na qual está conceituado o empreendimento é  solutamente
essencial não somente para seu êxito técnico, mas também para a certeza da sua competitividade e da confiabilidade da sua operação.
E não é necessário para isto deter no acervo da própria consultora experiências especificas na aplicação da tecnologia em questão.
O fundamental é a participação efetiva de um "parceiro tecnológico" com familiaridade e prática em empreendimentos similares.
A partir da experiência dessas variadas formas de parcerias, algumas Consultoras já partem para o passo mais avançado dessa evolução da atividade do setor. Assumem o protagonismo na geração de novos
negócios. Nada impede essa iniciativa, se a Empresa de Engenharia encontra respaldo financeiro adequado, através de associação com bancos ou fundos e mesmo seguradoras. Se assume esse protagonismo, cabe-lhe a iniciativa de constituir o grupo que realizará o empreendimento, montar o respectivo “project finance”, conformando o
consórcio e dele participando. Pode mesmo atuar como “main contractor”, subcontratando construtoras ou montadoras para a execução do empreendimento, sob seu gerenciamento e responsabilidade.
Nota-se porém que a atuação como "main contractor" ou como líder de E.P.C. já foge bastante do "core business" de uma empresa de consultoria, resultando em uma atividade empresarial mais abrangente, mais próxima daquela de um verdadeiro empreendedor.
São conhecidas as empresas que já assumem esse protagonismo na geração de negócios, naquelas diferentes formas de parceria.
As concessões de serviços públicos são um campo em que essas parcerias podem surgir da iniciativa e protagonismo da Consultora. Mas outros empreendimentos privados podem nascer da capacidade da empresa em vislumbrar a viabilidade de responder a uma determinada demanda da sociedade, ou de clientes potenciais. Assim poderá tomar a iniciativa de modelar uma solução e “vendê-la” ao investidor ou ao poder concedente, demonstrando, conforme o caso, a lucratividade, segurança de retorno do investimento, garantia de satisfação de demanda da população e oportunidade de realização do empreendimento.
Cabe destacar, nesse novo cenário, a criação das Agências Reguladoras: ANEEL, ANP, ANATEL, ANT, ANA e outras que vão surgindo a níveis estaduais e municipais. Nessas agências são identificadas as demandas da sociedade. Nelas se configuram as oportunidades de negócios e são desenhadas as modalidades de envolvimento da iniciativa privada para a sua realização. O estreito relacionamento da Consultoria com essas agências é um apoio efetivo e valioso ao próprio desempenho das suas atividades e, ao mesmo tempo, o mapeamento de que a Consultora precisa
para tomar a iniciativa de gerar seus próprios negócios.
Se as empresas de consultoria tiverem sucesso em consolidar este papel, se conseguirem demonstrar a importância do seu envolvimento na própria cadeia produtiva de cada setor, certamente representarão um elo fundamental e virtuoso do circuito indutor dos negócios destinados a ter sucesso.
E uma vez consolidada esta posição no país as Consultoras, reconhecidas e respeitadas, poderão pensar em exercer o mesmo papel de descobrir oportunidades e ser indutoras de "negócios" também fora do  Brasil.
Para tanto certamente as experiências e os resultados já obtidos no Brasil  representarão credenciais essenciais para promover com sucesso soluções integradas brasileiras.
A evolução da postura das consultoras brasileiras no mercado externo não será porém suficiente se não for  companhada por uma equivalente mudança de atitude dos outros elos da cadeia produtiva, incluindo os órgãos de apoio institucional, os bancos financiadores e as próprias empresas de bens e serviços envolvidas.
Neste cenário de parceria competitiva, resulta de fundamental importância a conscientização de que o segmento da consultoria de engenharia e arquitetura pode e deve ser considerado pelos articuladores da política de exportação de bens e serviços brasileiros, como válido alavancador de negócios no exterior nos setores em que sua competência e experiência sejam amplamente consolidadas e comprovadas no País.
Diante desse quadro exposto, surgem como prioridades, hoje, para as empresas e suas associações, a capacitação dos empresários para um desempenho seguro e inteligente nessas novas e promissoras formas e áreas de atuação. Também para o domínio de ações de marketing especializado, bem distinto do marketing de bens, produtos e outros serviços. Esse é hoje o desafio principal, o “core challenge” da Consultoria brasileira.

 

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