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De Como é barato reverter a miséria:

Helio Amorim

Há programas sociais de efeitos fantásticos que revertem situações dramáticas de pobreza extrema e de problemas humanos de todo tipo. O mais surpreendente é o baixíssimo custo desses programas. Ou para usar expressões do mercado: elevada relação benefício/custo. É claro que esses programas, por terem êxito, não figuram na grande mídia. Só deles se ocupariam se associados a algum escândalo, roubo, tiroteio, formação de quadrilha ou desastre da natureza. Como essa associação não costuma acontecer, esses programas permanecem na sombra. Pouco deles se fala.

Há um programa social em curso, no Rio de Janeiro, que já virou produto de exportação. Começa a ser projetado para acontecer em outros países com franco apoio popular e do Banco (BID) que o financia. O nome de batismo é Favela-Bairro, que já diz o que propõe: transformar favelas em bairros - modestos mas agradáveis, onde é possível viver-se com dignidade. Idéia feliz do prefeito Conde, arquiteto-urbanista de talento e confirmada sensibilidade social.

Para se compreender o que está acontecendo seria preciso visitar corajosamente uma favela qualquer ainda não tocada e logo em seguida visitar uma das cem já urbanizadas. O contraste impacta. Ruas pavimentadas e escadas de cimento substituíram vielas e becos de lama. Redes de esgotos sanitários e água potável chegam a todas as casas, reduzindo as doenças crônicas causadas pelas valas negras e o lixo acumulado. A iluminação pública é igual à dos bairros da cidade. Pelas ruas transitam carros particulares e de serviços, ambulâncias e patrulhas policiais, correio, onde antes só se podia caminhar ou escalar barrancos a pé. A coleta de lixo é feita por garis comunitários contratados entre os moradores e recolhido por carros da companhia municipal.

Os projetos foram discutidos com a comunidade desde a concepção inicial dos escritórios de arquitetura. Criam-se praças e pontos de encontro, com bancos, mesas de jogos, brinquedos em vários pontos da comunidade e áreas de esporte. Delimitada a área da favela, segundo requisitos ambientais, o entorno é logo reflorestado com mão-de-obra remunerada de moradores locais. Uma creche pelo menos, com berçário e equipamento adequado para um bom trabalho, vai mudar a vida de muitas famílias. Mães que não podiam, agora podem sair para trabalhar durante o dia. Seus filhos ficarão em tempo integral na creche, com toda a alimentação necessária, além do banho e cuidados de saúde. A renda familiar dá um salto, ainda que gerada por trabalhos simples de faxinas domésticas ou habilidades manuais. Para otimizar esse potencial gerador de renda, um posto de serviços construído especialmente e instalado em cada comunidade oferece orientação de técnicos e apoio para a formação de cooperativas de trabalho, treinamento, cursos de informática e carteira de empregos. As creches vão incorporando mão-de-obra local: nelas funcionam cursos de recreadoras ou crecheiras, ministrados por profissionais numa equipe multidisciplinar. Assim capacitadas, passam essas jovens ou mães de família a trabalhar nas próprias creches da comunidade, mas já descobriram que há uma ávido mercado lá fora para esse tipo de serviço, quando se apresentam como "formadas" para isso. Até hotéis já demandam seus serviços, como baby-sitters de casais hóspedes que querem ir ao teatro... Embora o bem bolado programa não se proponha a construir casas, a não ser para as famílias desalojadas pelo desenho das novas ruas, o que acontece era imprevisível: os moradores que agora são donos da sua moradia e terreno, e sabem que dali ninguém mais vai expulsá-los, começam a investir por sua conta em melhorias e acréscimos em suas casas.

Ninguém previa antes o que significa para as famílias que ali vivem passar a ter endereço: rua com nome e casa com número, as cartas chegando em casa. A auto-estima é recuperada. As pessoas se vestem com mais apuro, têm outra postura, as crianças já não andam peladas pulando sobre valas de esgotos, já não se joga lixo nas ruas e encostas. O que se vê então é uma incrível explosão imobiliária. Há uma linha de crédito da Caixa Econômica para compra de material de construção. Mas o que se constata é que a casa de materiais de construção do bairro vende cimento e tijolo a prestações, sem burocracia, sabendo que pobre paga suas contas melhor que a classe média.

Mas... quanto custa essa revolução? Apenas três mil dólares no máximo por moradia da favela que vai ser urbanizada, menos da quarta parte do custo de construir moradias novas em conjuntos habitacionais distantes do mercado de trabalho. Os efeitos sociais, a melhoria das condições de higiene da população local e conseqüente economia nos serviços de saúde pública, o aumento de renda, a valorização das propriedades da ex-favela e do seu entorno, geralmente bairros das classes médias, a dignidade humana devolvida e agora respeitada, valem muitas e muitas vezes os custos dessas intervenções. Nem dá para avaliar com precisão o tamanho dos benefícios e do retorno econômico e social desse investimento.

As tentativas do passado de enfrentar as favelas, consideradas um problema, partiam da sua remoção para conjuntos habitacionais distantes do mercado de trabalho, gerando guetos de pobreza e apartheid social, com graves prejuízos para as famílias removidas. A idéia simples que gerou esse programa bom, bonito e barato pode ser resumida numa frase: a favela não é o problema mas a solução digna possível, se dotada da infra-estrutura e serviços oferecidos aos bairros da cidade formal. É o que está sendo feito.


 

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