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TECNOLOGIA VERDE-AMARELA

 Roberto Nicolsky.*

No último dia útil do século que acaba de se encerrar, foi publicada a Lei 10.168, que cria o Fundo de Estímulo à Integração Universidade-Empresa para o Apoio à Inovação, batizado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) de Fundo Verde-amarelo. O fundo pretenderia ser a mudança de rumos na política de pesquisa defendida por este e outros autores há anos, que é a do fomento às inovações tecnológicas nacionais, fazendo a pesquisa contribuir de fato para o crescimento da nação, da renda e da melhoria de sua distribuição.

Os recursos do fundo são constituídos pela contribuição de 10% sobre os pagamentos por royalties de licenciamentos de patentes, tecnologias e marcas contratados no exterior. Esses recursos irão para o FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), operado pela FINEP, e se destinam à "integração" universidades-empresas para produzir inovações de que os nossos produtos precisam para elevar o seu valor agregado e a sua competitividade no exterior, fazendo crescer a nossa exportação.

Não há dúvida de que a idéia do fundo é válida e oportuna porque a falta de geração de uma tecnologia própria levou-nos à dependência tecnológica, elevando os pagamentos por royalties de poucos milhões de dólares em 1992 para cerca de US$ 2,5 bilhões nos últimos anos. E esse custo é, na realidade, ainda bem maior, se considerarmos o valor das inovações tecnológicas embutido nos preços de insumos, componentes e equipamentos importados, principalmente pelas empresas transnacionais de suas matrizes. É só ver os valores pagos pelos fármacos das transnacionais e compará-los com os preços de mercado, como foi evidenciado pela CPI dos Medicamentos.

Infelizmente, porém, a concepção desse fundo e a cultura que a fundamenta estão longe de assegurar que venha a alcançar o seu propósito. O seu próprio nome já expressa uma falácia, um mito: a integração universidade-empresa. A idéia de que a universidade produz tecnologia é um mito comum aos países sem tecnologia própria, tendo cunhado a nossa política de pesquisa. Um erro que contribuiu para a atual dependência tecnológica.

As tecnologias só se impõem no mercado se atenderem à demanda real de consumidores e têm por motivação a busca de lucro. Portanto, é indispensável que venham competir com as alternativas concorrentes, isto é, que sejam produzidas e comercializadas. A concepção do fundo é a de "...ajudar as universidades a transformarem o que sabem em produtos do mercado" (site do MCT). Mas isso não é função da universidade, cuja missão é formar recursos humanos qualificados e nesse processo gerar conhecimentos, ou seja, ciência básica e aplicada. Com conceitos semelhantes, já vimos outros filmes - FNDCT, PADCT e outras siglas nos últimos 25 anos - fracassarem na criação de inovações brasileiras.

Inovar continuamente, gerando novos produtos, processos e tecnologias, faz-se, em todo o mundo essencialmente no setor produtivo. Nos Estados Unidos, a pesquisa, em 75% dos casos, é destinada à inovação, realiza-se no ambiente empresarial, responde por 97% das patentes americanas e dá sustentabilidade ao crescimento contínuo da economia há mais de 30 anos, como o destacou Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve Bank.

Algo muito semelhante ocorre na União Européia e no Japão. E até uma nova economia como a Coréia, do tamanho de Pernambuco e com um quarto da nossa população, também já faz 75% das pesquisas nas indústrias e cresce rapidamente há 30 anos. Os resultados? As suas patentes no mercado americano aumentam 30% a cada ano, sendo hoje 50 vezes as nossas, o seu PIB per capita é quase três vezes o nosso, com boa distribuição de renda.

A chamada integração universidade-empresa é figura de retórica. São entidades que têm objetivos diferentes, linguagens distintas e funções sociais diversas. Não há como institucionalizar essa tal integração. Isso é como obrigar as empresas a agir com padrões acadêmicos e querer que as universidades se preocupem com mercado e lucros. É o desvirtuamento de ambas as instituições, o que obviamente é indesejado e ineficiente.

Até nos Estados Unidos, onde a quase totalidade das universidades é privada, menos de 7% em média de suas verbas provém das empresas, isso representando apenas cerca de 1% dos dispêndios em pesquisa realizados pelas indústrias. Lá, a pesquisa acadêmica é cerca de 13% do total, vive essencialmente das receitas públicas, dedica-se à preparação de recursos humanos e à ciência, gerando menos de 3% das inovações medidas em patentes.

Essa contribuição de 10%, se não representa um custo adicional, é, pelo menos, um desencaixe expressivo para as empresas. E se está destinada a gerar inovações, patentes, é indispensável que seja disponibilizada diretamente às empresas aptas a aplicá-la em pesquisa tecnológica, como se faz nos países que geram inovações, sem a exigência da integração compulsória com universidades. E quando a empresa não for auto-suficiente na realização da pesquisa, a universidade pode e deve colaborar, desde que solicitada por indústrias que atendam demandas reais e se incumbam de produzir e comercializar as inovações. A parceria se estabelece mediante convênios, com o repasse dos recursos necessários ao trabalho universitário, como já se faz com a Petrobrás e outras empresas. Mas, para auscultar o mercado e desenvolver a inovação, a indústria não tem substitutos.

A via universitária para gerar inovação tecnológica já foi tentada muitas vezes, tendo resultado em desempenhos modestíssimos. A produção de patentes está estacionária, senão declinante se subtrairmos a pequena contribuição das empresas. Que fique claro que não se é contra esse fundo e os demais já criados. Cabe-nos porém alertar para a forma da sua regulamentação e a sua política de aplicações, para não frustrarmos a sociedade mais uma vez em relação á sua necessidade, efetiva e urgente, de criação de uma autêntica, abrangente e internacionalmente competitiva tecnologia verde-amarela.

* Professor da UFRJ/JB-18/01/01.

 

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