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Vivendo 50 anos como engenheiro brasileiro.

Alir Dória (*)

Aprendi que um país sem tecnologia própria, sem universidades modernas e equipadas, sem centros de pesquisas, sem consultoria de engenharia não tem condições de desenvolvimento. Será um país submisso, que gera dependência tecnológica, econômica e política, ferindo a soberania e, o mais grave, a dignidade de seu povo. Este tripé que sustenta o patrimônio tecnológico está desbalanceado no Brasil.

Neste meio século, o povo brasileiro investiu muitos recursos para que engenheiros brasileiros se especializassem nos países tecnologicamente mais desenvolvidos, almejando trazer para nosso país os conhecimentos e as técnicas que permitissem melhorar a sua qualidade de vida. Assim, tive a oportunidade de assistir a engenharia brasileira evoluir até a fronteira do conhecimento tecnológico, dominando as técnicas de ponta e desenvolvendo soluções de baixo custo e de fácil operacionalidade para a nossa população.

A partir da década de l950, no pós-guerra, a engenharia e a arquitetura brasileiras comprovaram imensa capacidade, criatividade e genialidade nas soluções dos planejamentos executados com sucesso e de forma independente. Estávamos implementando a tecnologia nacional. Criamos a arquitetura e urbanismo de Brasília, fizemos hidrelétricas como as de Paulo Afonso, Sobradinho, Itaipú, Furnas, Xingó, Barra Bonita, Ilha Solteira e muitas outras. Desenvolvemos sobremaneira nossa malha viária (Bandeirantes, Castelo Branco, Anhanguera, Anchieta, Imigrantes e muitas BRs). No Saneamento Básico, o Sistema Rio Descoberto e Torto, para abastecer de água Brasília, Sistema Cantareira, para o Abastecimento de Água para a cidade de São Paulo, Sistema Pedra do Cavalo, para o abastecimento de água para Salvador, Sistema Rio das Velhas, para Belo Horizonte e o saneamento das capitais e centenas de cidades. Implantamos os primeiros sistemas metroviários e impulsionamos as telecomunicações e a informática e na área de petróleo, a Petrobrás.

Além do mais, podemos citar a contribuição da engenharia em outras áreas científicas, como a engenharia genética e sua fantástica contribuição para o diagnóstico, tratamento e cura de várias doenças. Também podemos citar o desenvolvimento na área da agricultura, com o surgimento de novas tecnologias para a produção de melhores alimentos.

O planejamento e execução de grandes obras de engenharia, quando realizada por brasileiros, atende melhor aos nossos interesses em todos os seus aspectos técnicos, sociais e econômico-financeiros. Hoje ninguém pode duvidar do enorme potencial e capacidade de nossos técnicos em desenvolver o Brasil.

No regime político de exceção, executaram-se grandes obras de infra-estrutura nas áreas de saneamento, telecomunicações e belíssimas obras de prédios arquitetônicos urbanos.

Na década de l980, chamada "Década Perdida", iniciou-se um processo de pouco investimento governamental. Em conseqüência, as atividades da engenharia foram reduzidas. Grandes firmas de consultoria e empreiteiras sem contratos começaram a desativação de suas equipes técnicas, abdicando da colaboração de engenheiros com 10, 20 até 30 anos de experiência – muitos com mestrado e PhD. Viu-se, então, o surgimento e consolidação de fatos do tipo "o engenheiro que virou suco".

Foi o desmantelamento da intelectualidade técnica brasileira que o país levou 40 anos para formar. Foi o início da perda de nossa soberania tecnológica.

Na década de 1990, a engenharia e a arquitetura brasileiras tiveram um inexplicável retrocesso para um país que está procurando seu desenvolvimento. Quais são as forças que desmantelaram nossa tecnologia? A quem interessa o debacle de nossa tecnologia? Será que as forças desnacionalizantes e antibrasileiras venceram?

Nenhum brasileiro consciente, exercendo liderança na condução dos destinos do Brasil, poderia destruir uma cultura técnico-científica cujo custo a sociedade financiou. A sociedade bem informada, participativa, digna e com capacidade de influir nas decisões nacionais jamais permitiria o desmantelamento da instituição nacional nas áreas de engenharia e arquitetura.

Pergunto: "Como isto aconteceu?" Participação das forças econômicas alienígenas, indiferença dos políticos e tecnocratas com poder de decisão, culpa dos engenheiros e arquitetos que não souberam colocar a "boca no trombone"? Se o Governo sempre protegeu os bancos, as multinacionais e o capital especulativo, por que não se interessou em proteger a tecnologia brasileira?

De forma inescrupulosa, com o refrão que o Brasil não possui mão-de-obra especializada, as multinacionais desenvolvem toda a sua tecnologia no seu país de origem e nos trazem uma já pronta, sem interesse muitas vezes para o Brasil, e nos cobram royalties. Além disso contratam a engenharia de consultoria e técnicos do seu país.

Ainda não perdemos a guerra para implantar uma tecnologia brasileira. O engenheiro tem uma importante função social a cumprir e necessita se arregimentar via associações de classe para recompor a dignidade profissional do engenheiro brasileiro.

O engenheiro precisa aprender a se defender. Não é uma máquina para produzir nem deve estar atrelado ou subjugado por interesses antibrasileiros. É uma peça social importante no desempenho de sua verdadeira missão – dar ao abandonado povo brasileiro o desenvolvimento social de que tanto necessita.

(*) Engenheiro Civil, Formado em 1950 pela Universidade Federal do Paraná
É o principal da TECNOSAN Engenharia, empresa de consultoria fundada em 1961
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