A VACA LOUCA DAS HIDROVIAS
Cláudio
Dreer (*)
Um recente estudo da Embrapa,
a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, exibe números preocupantes.
O Brasil perde todo ano, na colheita e comercialização de suas
safras agrícolas, milhões. Muitos milhões de reais. Em
1996, por exemplo, esse prejuízo chegou ao patamar assustador de R$ 1,6
bilhões. Desperdiçaram-se naquele ano, entre a porteira da fazenda
e o consumidor, cerca de 11,5 milhões de toneladas de grãos. Dinheiro
graúdo.
Por quê tanto desperdício?
Uma das causas, segundo a Embrapa, é o mau preparo do solo. Muitos erros
são cometidos nessa área. Mas o problema maior está no
transporte pré e pós colheita. Assusta, realmente, o despreparo
de produtores rurais na hora de escolher a opção modal para o
transporte de suas safras.
Nenhum modal de transporte
é melhor do que outro em abstrato. A ferrovia não compete nos
mesmos termos com a rodovia nem esta com a hidrovia. A opção por
um modal ou outro é ditada pelas injunções da logística,
que articula a multimodalidade, tendo em vista obter eficiência, eficácia
e redução de custo no deslocamento de cargas. No mais das vezes,
quando se trata de longas distâncias, é da combinação
de pelo menos dois modais que se chega à melhor equação
econômica.
Para o transporte de "commodities",
um tipo de mercadoria que se caracteriza por ser negociada em grandes volumes
e baixo preço unitário, em percurso de longa distância,
é mais vantajosa a utilização da hidrovia e da ferrovia
que da rodovia.
Mas, em que pese essa gritante
evidência, no Brasil, país que é o segundo maior exportador
mundial de soja, cerca de 67% desse produto é transportado por rodovia,
28% por ferrovia e apenas 5% por hidrovia. Isso faz com que o custo do transporte
de grãos no país seja um dos mais elevados do mundo, comprometendo
a competitividade do produto brasileiro no mercado externo.
Por quê isso acontece?
Por quê o Brasil, dono de uma das maiores redes hidrográficas,
do mundo, não a utiliza corretamente? A reabertura da discussão
sobre as nossas hidrovias é oportuna no momento em que o governo do Canadá
utiliza-se de argumentos infames para vencer uma guerra comercial com o Brasil.
Em uma decisão considerada não apenas irracional – mas também
suspeita –, o Canadá proibiu, há alguns dias, a importação
de carne bovina brasileira. A alegação: haveria uma remota possibilidade
de o produto estar contaminado pelo chamado mal da vaca louca, que afeta rebanhos
europeus.
Nada mais infame. E a própria
comunidade científica canadense demonstrou, para o desagrado do primeiro-ministro
Jean-Chrétieu, que não havia nada de vaca louca na história.
A decisão fora política. Na verdade, uma guerra muito longe dos
rebanhos.
Uma guerra nos ares. A brasileira
Embraer desbancou o reinado da canadense Bombardier no bilionário mercado
mundial de jatos comerciais de pequeno porte. Um mercado no qual o Brasil começa
a brilhar com tecnologia e preços competitivos.
Mas que tem isso a ver com
as hidrovias? Tudo. As hidrovias também estão no centro de uma
guerra por espaços no comércio exterior. A dos produtores de grãos.
Ursos muito maiores do que
o urso canadense, como bem retrata a última edição da VEJA,
para proteger interesses econômicos dos produtores agrícolas de
seus países usam o meio ambiente para impedir o desenvolvimento do nosso
transporte fluvial.
Hidrovias como a Tocantins-Araguaia,
Teles Pires-Tapajós-Amazonas e Paraguai-Paraná, se efetivamente
implementadas mudam completamente o conceito e a logística de transportes
no Brasil. Tornariam os produtos agrícolas brasileiros imbatíveis
no mercado internacional, principalmente de grãos. Aí está
a "Vaca Louca das Hidrovias".
Não podemos mais
admitir que "jóias da literatura técnica de ambientalistas"
como: "o comboio fluvial vai atropelar os peixes" ou "as placas
de sinalização de margem das hidrovias estressam os pássaros,
atrapalhando a sua reprodução" venham a virar verdade para
a opinião pública.
A engenharia nacional está
consciente dos problemas ambientais, atuando nesta área, e estando apta
a desenvolver projetos de infra-estrutura que atendam as exigências ambientais.
No caso da Vaca Louca os
canadenses mostraram o seu urso. No caso das hidrovias, causando prejuízos
muito maiores aos agricultores brasileiros e a própria nação,
existem outros ursos mais poderosos e dissimulados. Ursos que vem há
muitos anos atuando no Brasil, impedindo o seu desenvolvimento com suas garras
escondidas, camufladas atrás de doces figuras de "Ursos Zé
Colméia" e "Ursos Panda".
Este é um tema impossível
de se esgotar em um único artigo. Por isso mesmo é importante
voltar a discuti-lo. Mas, para concluir, gostaria de ressaltar apenas mais um
número que considero importante. Um dos graves problemas do país
é, sabidamente, o desemprego. Pois com o desenvolvimento da agricultura
somente na região da hidrovia Tocantins-Araguaia poderiam ser criados
mais de 850 mil empregos, segundo estimativas do Ministério da Agricultura.
Desenvolvimento este que depende do transporte fluvial para se viabilizar economicamente.
Este é apenas um
exemplo de como e quanto o Brasil está perdendo. É preciso que
a sociedade brasileira conheça as verdades que envolvem este tema e que
o governo brasileiro assuma, também neste caso, a mesma postura firme
e independente como no episódio da Vaca Louca.
*Cláudio
M. Dreer é Consultor na Área de Transportes e Diretor da ABCE.
|