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UMA
ANTOLOGIA DE EQUÍVOCOS
Cláudio Dreer*
Uma recente reportagem da
revista Veja agride a cidade de Santos. Agride, principalmente, trabalhadores
que ajudaram a construir o patrimônio e a respeitabilidade do porto. Seu
título: "Portuários de paletó e joystick". Nela
são apresentados números que mostram a distância tecnológica
entre o porto de Cingapura e o de Santos. Fato incontestável, conhecido
pelos que militam na área ou possuem atividades afins. A fria estatística
despejada pela revista, no entanto, está isolada de maior aprofundamento,
de modo que o leitor leigo possa ter uma mais ampla compreensão do que
verdadeiramente ocorre. A comparação entre os dois portos, extremamente
simplista, abala a auto-estima da população santista. E da população
brasileira. É o mesmo que comparar o poderio bélico americano
com o brasileiro ou o turismo da Riviera Francesa, com o turismo do litoral
da Bahia.
Por trás de cada
número desfavorável ao porto brasileiro, que a revista registra
com pontuações irônicas, existem razões que merecem
chegar ao leitor. Da mesma forma o outro lado da moeda. A pujança de
Cingapura possui razões históricas, estratégicas que nem
de longe foram mencionadas. Apenas citadas como fantásticas, maravilhosas,
sem maior reflexão.
Já a pujança
de Santos, com sua engenharia portuária, seus trabalhadores e seus empreendedores
cidadãos, que por décadas responderam, a altura, por quase a totalidade
do comércio internacional brasileiro, foi esquecida e sequer mencionada,
para que, ao menos, o leitor pudesse refletir.
Aliás, a mesma reflexão
que falta à burguesia brasileira, que acha lindo e moderno fazer seu
lanche num fast-food de Shopping Center e ela própria recolher ao lixo
seus restos, seu guardanapo e seus talheres descartáveis. Por trás
deste ato tão "civilizado" existe uma fluência de milhões
e milhões de reais aos bolsos dos donos das redes mundiais de fast-food.
Na verdade, ela está fazendo o papel de empregado não remunerado
desses sortudos empresários.
Se aqui precisamos de sete
louras para trocar uma lâmpada – uma para segurar a lâmpada e seis
para girar a escada, como comenta a matéria da Veja, em Cingapura não
se encontrará nenhum garçom para recolher seus restos de comida
do fast-food. Isto implicaria em contratar a mão-de-obra mais barata
de lá, cujo salário deve girar em torno de três mil dólares
por mês, o que inviabilizaria qualquer negócio de sanduíches,
em qualquer lugar do mundo. Aliás, lá, ninguém recolheria
restos de comida de ninguém, a menos que lhe paguem muito bem por isso,
porque 97% de população é alfabetizada.
No Brasil, para cada bobo
que se acha civilizado o bastante para trabalhar de graça para o dono
de lanchonete, existem 100 desempregados dispostos a pegar com as duas mãos,
os míseros 180 reais de salário por este serviço. Seria
moderno, se não fosse chocante. No caso dos brasileiros, que não
é piada, como o caso das louras, o certo também é chorar,
não apenas pelos números do porto de Santos, mas pelo número
de miseráveis que não tem emprego porque bobos, como nós,
de terno, gravata e celular, trabalham de graça para as multinacionais.
A reportagem da Veja, que
compara os números do Porto de Santos com os de Cingapura não
é uma piada de loura, nem piada é, mas, curiosamente, faz rir.
Com uma população de quatro milhões de habitantes e uma
renda per-capita de 13 mil dólares é mais fácil ser moderno.
Como se não bastasse, é bom lembrar, o porto de Cingapura é
estatal e regulado por leis absolutamente diversas das nossas, onde a expressão
"Port Authority" tem sua tradução exata: porto autônomo.
Cingapura, cuja situação geopolítica é economicamente
privilegiada, viveu inúmeros conflitos de dominação durante
séculos até o ano de 1965. Seu porto está situado numa
região estratégica do mundo, onde, desde Gengis Khan, circula
boa parte da riqueza do planeta.
Se a cidade de Santos, por
força da modernidade manca da Lei 8.630, Lei dos Portos, já está
com a língua de fora, com centenas de lojas fechadas e elevado índice
de desemprego, imagine como ficará com a pura e singela substituição
de seus trabalhadores por executivos de terno e joystick, comandando o embarque
e desembarque de contêineres?
Em Cingapura ninguém
quer ou precisa servir e nem limpar mesa de lanchonete. Primeiro por que o tempo
de formação escolar mínimo de lá ultrapassa os oito
anos e meio e isso permite que cada trabalhador se dedique, nas organizações,
a participar dos níveis mais elaborados e sofisticados do processo produtivo,
com melhores salários; segundo, mais ou menos pelos mesmos motivos, ou
você joga suas próprias sobras de comida no lixo ou você
simplesmente não come por aquele preço.
E há restaurantes,
é claro, onde você é servido por um batalhão de garçons
e outros serviçais. Mas se prepare para pagar pelo menos 100 dólares
por um bife e não se esqueça de que parte desse dinheiro vai para
o bolso de quem pôs a comida na sua mesa e limpou suas sobras.
Enquanto persistir a febre
por "modernidade" de muitos brasileiros, influenciados pela mídia
que não se aprofunda nos assuntos, não busca conhecer as causas
e muito menos as conseqüências das matérias que produz, continuaremos
a mercê de opiniões que convencem pela leitura fácil e pelos
números impressionantes, no oportunismo da busca pelo moderno e pelo
global, sem a existência do contraditório, de um contraponto, que
pelo menos faça o leitor pensar.
* Diretor da ABCE - Associação
Brasileira de Consultores de Engenharia e ex-presidente da CODESP.
Publicado em "A Tribuna" – Santos-SP.
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