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Saneamento sonegado: uma violência surda

Helio Amorim*

Falta de saneamento mata mais que a Aids no mundo. No Brasil, de cada três casas, só uma tem esgotos coletados por rede pública. O resto é lançado em valas negras onde brincam crianças nas favelas, em córregos e canais ou em fossas precárias que poluem o lençol de água do subsolo e as nascentes. De cada três sistemas de coleta de esgotos existentes no país, dois deságuam sem tratamento poluindo rios e lagoas, que passam a transmitir doenças mais adiante.

O resultado dessa violência surda são as doenças crônicas e o alto índice de mortalidade infantil. São elevados os custos para o sistema de saúde pública. Essas doenças, quando não matam, reduzem a capacidade de trabalho e de aprendizagem.

Quando chegam a água e a coleta dos esgotos na casa, a vida da família muda quase instantaneamente. Provas concretas que já temos citado: um programa de urbanização de favelas no Rio de Janeiro, com a implantação do saneamento, reduziu imediatamente o movimento dos postos de saúde próximos de cada nova urbanização. Pesquisas nacionais indicaram que as crianças que moram em casas sem água encanada têm em média seis crises de diarréia por ano. Se a casa ganha um único ponto de água, o número cai para três. Se tem duas torneiras, a diarréia desaparece. Simplesmente fantástico.

Por que então não se concretiza a universalização do saneamento no Brasil?

Em primeiro lugar, porque custa caro. Será preciso investir mais de 40 bilhões de reais para que todo brasileiro tenha água e esgotos coletados, com tratamento correto. As empresas estaduais e municipais não dispõem de tamanhos recursos. Se continuarem investindo o que aplicam atualmente, somente em 20 anos teremos a meta atingida nas regiões mais ricas e em meio século nas regiões pobres do país (na região Norte, apenas 2,3% das casas são atendidas). A maioria dessas empresas estaduais estão no limite de sua capacidade de endividamento e não podem buscar novos empréstimos. O governo federal perdeu a capacidade de injetar recursos mais substanciais para apoiá-las.

A única saída é atrair investimentos privados e assim antecipar prazos para a desejada universalização do saneamento. Aqui aparece outro obstáculo que impede há anos a aprovação da lei que regulará essa questão. Há uma disputa encarniçada entre estados e municípios pela chamada titularidade ou poder de implantar sistemas de saneamento e conceder a empresas privadas a entrada nesse campo. Os estados já têm suas empresas de saneamento que não querem abrir mão da concessão que lhes foi dada anteriormente. Os municípios querem que se cumpra o dispositivo constitucional que lhes outorga a titularidade para tentar atrair empresas privadas nas cidades em que a empresa estadual não tem capacidade de resolver o problema a curto ou médio prazo.

A Lei que está para ser votada, sempre adiada pelas pressões dos interessados, adotará, se aprovada, uma solução salomônica: nos municípios em que o sistema de esgotos atender exclusivamente o seu território, o poder concedente lhes pertencerá. Se o sistema deve atender a mais de um município, o poder concedente e a gestão do sistema serão compartilhados. O estado fica com a exclusividade da produção de água tratada, passando aos municípios a faculdade de operar ou conceder a sua distribuição. A concessão para a implantação e operação dos sistemas será feita mediante licitações públicas, sendo vencedora a empresa que oferecer o maior volume de investimentos, no menor prazo, com a menor tarifa. Parece ser a solução lógica. O relator do projeto de lei é o deputado Adolfo Marinho, membro do Conselho Estratégico da ABCE.

Surgirão outros problemas solúveis. Uma concessionária privada tem fins lucrativos, naturalmente. O serviço não é barato e nem todos podem pagá-los. Por outro lado, as desigualdades regionais canalizariam o interesse das concessionárias privadas para as regiões ricas. O resto do Brasil continuaria dependente de investimentos públicos.

Soluções existem. Supõem uma justiça distributiva, pela qual os ricos pagariam mais para que os pobres fossem subvencionados. Na cidade, a tarifa de água e esgoto para as classes médias poderia ter uma taxa adicional recolhida para um fundo que reforçado por verbas de governo cobriria o serviço gratuito ou a custo simbólico para os setores pobres da população. A nível nacional, outros mecanismos compensatórios permitiriam canalizar os investimentos públicos para as regiões pobres, com reforço, por exemplo, de uma parte da taxa aplicável ao uso das águas dos rios, o que já começou a ser praticado recentemente no país pela recém criada Agência Nacional de Águas. Muitas alternativas surgirão se o impasse atual for superado e se houver vontade política de fazer justiça, compensando os desequilíbrios socio-econômicos atuais para assegurar saúde aos estratos sociais e às regiões mais pobres, justamente os mais afetados por essa violência, já agora imperdoável pela demora da solução.

*Secretário Geral da Associação Brasileira de Consultores de Engenharia

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