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A Engenharia e P&D

Angelo Vian
Presidente da Diretoria Nacional da ABCE
Palestra na Academia Brasileira de Ciências

A Engenharia Brasileira tem sido fortemente prejudicada pelo modelo de inserção do Brasil na mundialização da economia, sem a necessária preparação das Universidades, Centros de Pesquisas e Empresas brasileiras para uma competição sem limites e ainda desequilibrada, sem se ter levado em conta a histórica defasagem do desenvolvimento tecnológico existente entre os países que agora concorrem comercialmente em mercados abertos.

As empresas de Engenharia de todos os setores, mas especialmente a Consultoria, já estavam vitimadas pela crise gerada pela drástica redução dos investimentos públicos em infra-estrutura, no período fortemente recessivo dos anos 80-90. Desmantelaram-se equipes técnicas, encolheram os postos de trabalho, despencaram os salários. Além disso, por conta da globalização, aportam hoje no nosso país, empresas estrangeiras atreladas a investimentos externos, nem sempre tecnicamente preparadas e pouco conhecedoras da realidade brasileira. Nem sempre a tecnologia que utilizam é avançada ou melhor que a já dominada no país. Assim, ocupam o espaço próprio da Engenharia brasileira, freqüentemente sem procurar conhecer a capacidade das empresas locais de lhes fornecer serviços de qualidade igual ou superior, em condições muitas vezes melhores sob todos os aspectos.

A expectativa de formar-se na Universidade e seguir uma carreira profissional no âmbito da Engenharia foi abalada pelas incertezas e instabilidade do mercado e das relações de trabalho.

Na área acadêmica a Engenharia se ressente de crescente desinteresse dos jovens pela profissão, por falta de perspectivas de emprego e precariedade dos recursos das Universidades para uma formação de nível eqüivalente ao das universidades estrangeiras, obstáculo para uma inserção competitiva no mercado de trabalho, agora sem fronteiras. Certamente é chegado o tempo propício para uma profunda revisão dos currículos universitários, com a integração de mão dupla entre Universidade e Empresas. Trata-se de levar a experiência da empresa na própria formação acadêmica e de incentivar a abertura de oportunidades de presença do estudante na empresa, na etapa que precede a sua próxima inserção no mercado de trabalho.

Hoje ninguém ignora que o estágio de desenvolvimento de um país se mede pelo nível de investimentos em pesquisas e domínio de tecnologias avançadas, essenciais para o intercâmbio e cooperação técnica recíproca com outros países, permitindo o equilíbrio na competição mundializada. Nada obstante a interdependência dos países no que respeita às diferentes tecnologias em franco e acelerado desenvolvimento, a minimização da dependência tecnológica de uma nação é um fator obrigatório da preservação de sua independência política e econômica, devendo portanto constituir-se em objetivo nacional permanente.

Por outro lado, a histórica falta de investimentos gerou até mesmo uma limitada capacidade de hoje absorverem-se recursos que venham a ser disponibilizados para pesquisas e desenvolvimento tecnológico. Surgem agora os Fundos Setoriais de P&D, pela primeira vez definidas em lei fontes estáveis de recursos, em volume apreciável. Este esforço bem sucedido do Ministério de C&T, FINEP e CNPq para a sua criação, passa a ser um marco decisivo na reversão da tradicional penúria nas atividades de pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

Com os novos fundos setoriais funcionando, na expectativa de crescimento dos investimentos nessas atividades, os Centros de Pesquisas, Universidades e Empresas de áreas tecnológicas terão que se preparar para utilizar os recursos que venham a ser disponibilizados, para que não resulte a sua não utilização plena ou, pior, a sua aplicação desordenada e dispersa por falta de uma política ordenada e articulada, com objetivos, prioridades e metas claramente definidas.

Pesquisas a desenvolver serão basicamente de duas naturezas, que muitas vezes se confundem: a pesquisa acadêmica básica, desenvolvida nas Universidades e Centros de Pesquisas, visando à inovação tecnológica e domínio crescente do conhecimento científico; e a pesquisa que visa à obtenção de um produto tecnológico de ponta, aplicável de imediato para atender às demandas previamente identificadas.

Nos países mais desenvolvidos, o interesse de produtos tecnológicos de pronta utilização leva empresas industriais, com recursos próprios e apoio financeiro de seus governos, a investir fortemente em P&D realizados "in house" ou nas Universidades, Centros de Pesquisa e Empresas de Engenharia, freqüentemente articulados entre si. Estas organizações têm, de fato, papéis distintos e complementares, que não devem confundir-se. Os profissionais atuantes em pesquisas, atividades acadêmicas e no desenvolvimento de projetos de engenharia têm, cada qual, identidades próprias, que devem ser preservadas para gerar sinergia na cooperação mútua. Busca-se um casamento fecundo e não um concubinato conflitivo e estéril.

As empresas de Engenharia de Projeto, Construções, Montagens, e também os departamentos técnicos das empresas do Setor Industrial, são os elos da cadeia produtiva que aplicam e utilizam aqueles produtos tecnológicos gerados nas pesquisas do segundo tipo. Por serem parte da cadeia produtiva, conhecem as demandas e o potencial das organizações de P&D. Por isso, são capazes de identificar prioridades e urgências nas demandas de desenvolvimento tecnológico.

A Engenharia Consultiva, ou Consultoria de Engenharia, é um dos suportes do patrimônio tecnológico da nação, ao lado das Universidades e Centros de Pesquisas. Os três atores formam o tripé que se bem articulado será capaz de conduzir um processo integrado de retomada do desenvolvimento tecnológico, como base para o desenvolvimento econômico e social do país. É um setor estratégico por lhe caber planejar, realizar estudos, definir as soluções viáveis e especificar as tecnologias mais adequadas para os investimentos públicos e privados, especialmente na implantação da infra-estrutura física do país.

A Consultoria Brasileira de Engenharia esteve e continua presente na concepção dos grandes empreendimentos nacionais, dentre os quais os que constituem a infra-estrutura física do país: o sistema elétrico brasileiro (geração hidro e termelétrica, transmissão e distribuição de energia), o parque de refino e instalações de exploração e produção de petróleo on-shore e off-shore, os sistemas de transportes rodo-ferro-metro-aero-aquaviários, as grandes instalações de mineração, os sistemas de saneamento básico, os programas de desenvolvimento urbano e regional, e todos os demais empreendimentos públicos e privados brasileiros.

Diante da reativação, já em curso, dos investimentos públicos e privados na ampliação dessa infra-estrutura do país, as empresas de Consultoria têm que ser fortemente envolvidas no processo de atualização e reaparelhamento tecnológico da Engenharia brasileira, agora propiciado pelos novos Fundos Setoriais de P&D.

Para a retomada vigorosa do desenvolvimento tecnológico, a revalorização das Universidades, Centros de Pesquisas e da Engenharia Brasileira, e em especial da Engenharia Consultiva, ou Consultoria de Engenharia, as condições objetivas requeridas são, portanto, dentre muitas outras, as seguintes:


Ampliação dos investimentos para a modernização e aparelhamento das Universidades e Centros de Pesquisa científica, com a ampliação das fontes e montantes de recursos alocados aos fundos destinados à capacitação e desenvolvimento tecnológico, destinados a financiar projetos que envolvam parcerias daquelas organizações que formam o tripé tecnológico do país.


Revisão dos currículos universitários da engenharia, com incentivo a parcerias empresas-universidades que agreguem à formação acadêmica a experiência de técnicos e executivos de empresas privadas capazes de preparar o aluno para uma inserção mais competente e madura no mercado de trabalho.


Incremento dos investimentos públicos e privados requeridos para a expansão e manutenção da infra-estrutura física do país, como resposta às urgentes demandas da população, especialmente nas áreas de energia, transportes, saneamento básico e desenvolvimento urbano e regional, bem como fator de reativação e capacitação tecnológica dos profissionais e empresas de Engenharia envolvidos em tais programas.


Regulamentação da participação da engenharia estrangeira em empreendimentos no país, estabelecendo-se condições prévias de reciprocidade nas relações bi ou multilaterais, necessidade de comprovada qualificação e requisitos para a transferência de tecnologia através de parcerias que efetivamente a viabilizem, e isonomia nos encargos de qualquer natureza que assegure a igualdade na competição no mercado interno, regulando essa competição quanto à comprovação da capacidade técnica das empresas estrangeiras.


Criação de programas e condições especiais favoráveis para a aquisição de tecnologias não disponíveis no país e de ferramentas apropriadas para a capacitação tecnológica das Universidades, Centros de Pesquisas e dos profissionais e empresas brasileiras de Engenharia, através de tratamento tributário adequado e linhas de financiamento ágeis e acessíveis. Os Fundos Setoriais de P&D terão um papel fundamental na ampliação do domínio de tecnologias pelas empresas de Engenharia. Poderiam ser criados mecanismos e condições especiais para que essas empresas, em parceria e responsabilidade compartida com suas Associações Empresariais, venham a ser as gestoras diretas de programas de capacitação tecnológica que resultem em produtos devolvidos aos gestores dos Fundos Setoriais para sua disseminação, incorporando-os ao patrimônio tecnológico da nação.


Criação de um Fórum Permanente com a participação de Universidades, Centros de Pesquisas, Empresas de Engenharia e representantes do Governo, no âmbito do Ministério de C&T, para que exista o espaço adequado e saudável de relações, para a construção de uma necessária sinergia. Esse Fórum propiciará conhecimento mútuo, intercâmbio de experiências, organização do cenário em que atuam, identificação de demandas de desenvolvimento tecnológico, com a definição de prioridades e metas na aplicação dos recursos dos Fundos Setoriais destinados a P&D, avaliação e seleção dos projetos apresentados, em sintonia com as políticas de desenvolvimento do país.

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