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Política para a Engenharia Brasileira

Angelo Vian
Artigo publicado no Jornal do Brasil em 10/08/02.

A Engenharia brasileira tem sido fortemente prejudicada pelo modelo de inserção do Brasil na mundialização da economia, sem a necessária preparação das universidades e empresas brasileiras para uma competição sem limites e ainda desequilibrada, sem se ter levado em conta a histórica defasagem do desenvolvimento tecnológico existente entre os países que agora concorrem comercialmente em mercados abertos.

O desenvolvimento tecnológico de uma nação se apoia num tripé: as universidades, os centros de pesquisas e as empresas de consultoria de engenharia. Estas empresas constituem um setor altamente estratégico. Cabe-lhes planejar, realizar estudos, definir as soluções viáveis para os investimentos públicos e privados, especialmente na implantação da infra-estrutura física do país.

Estiveram e continuam presentes na concepção dos grandes empreendimentos nacionais, dentre os quais os do sistema elétrico brasileiro (geração hidro e termelétrica, transmissão e distribuição de energia), do parque de refino e das instalações de exploração e produção de petróleo on-shore e off-shore, dos sistemas de transportes rodo-ferro-metro-aero-aquaviários, das grandes instalações de mineração, dos sistemas de saneamento básico, dos programas de desenvolvimento urbano e regional, e todos os demais empreendimentos públicos e privados brasileiros.

Este setor da Engenharia tem sido especialmente prejudicado pela falta de investimentos na infra-estrutura do país, pela dificuldade de acesso a linhas de financiamento adequadas e pela insuficiência de recursos para a capacitação tecnológica de profissionais e empresas.

Nada obstante a interdependência dos países no que respeita às diferentes tecnologias em franco e acelerado desenvolvimento, a minimização da dependência tecnológica de uma nação é um fator obrigatório da preservação de sua independência política e econômica, devendo portanto constituir-se em objetivo nacional permanente.

Para a revalorização da Engenharia brasileira, são requeridas algumas iniciativas objetivas. Preliminarmente é urgente a ampliação dos investimentos para a modernização e aparelhamento das Universidades e Centros de Pesquisa científica, com a ampliação das fontes e montantes de recursos alocados aos fundos destinados à capacitação e desenvolvimento tecnológico, destinados a financiar a fundo perdido projetos que envolvam parcerias daquelas organizações com empresas de Engenharia. Impõe-se uma revisão dos currículos universitários da engenharia e arquitetura, com incentivo a parcerias empresas-universidades que agreguem à formação acadêmica a experiência de empresários e executivos de empresas públicas e privadas capazes de preparar o aluno para uma inserção mais competente e madura no mercado de trabalho.

É inadiável a retomada dos investimentos requeridos para o desenvolvimento econômico e a expansão da infra-estrutura física do país especialmente nas áreas de energia, transportes, saneamento básico, como resposta às urgentes demandas da população. Também como fator de reativação e capacitação tecnológica dos profissionais e empresas de Engenharia envolvidos em tais programas

Devem ser revalorizadas as atividades de planejamento a nível nacional com apoio a estados e municípios para a execução de programas de desenvolvimento regional e urbano, com destaque para transportes urbanos e urbanização de agrupamentos habitacionais irregulares ou de risco, tendo em vista reduzir as vultosas perdas sociais e econômicas decorrentes dos tempos exorbitantes do deslocamento da moradia ao local de trabalho e a melhoria de condições e qualidade de vida da população mais carente, resultando em humanização das cidades, combate mais efetivo à pobreza e conseqüente redução da violência urbana.

Outra medida sempre reclamada pela Engenharia é a adoção de dispositivo na Lei de Diretrizes Orçamentárias – LDO para vedar a inclusão no Orçamento da União de verbas para obras públicas novas sem prévia existência de estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental, projeto básico e orçamento aprovados, e a correspondente inclusão de rubricas e verbas específicas para a contratação de tais estudos e projetos que viabilizem a futura inclusão das obras projetadas. Sem essa restrição, continuarão o desperdício de dinheiro público e a impossibilidade de controle efetivo sobre a sua aplicação. Nessa mesma linha de controle e otimização dos investimentos públicos através do planejamento, deverão ser criadas linhas especiais de financiamento a estados e municípios para a contratação de planos diretores, estudos e projetos básicos, não sujeitos tais financiamentos aos limites de endividamento do Estado ou Município, de modo a incentivar o planejamento seguro dos investimentos nesses níveis de governo.

A abertura do nosso mercado reclama uma cuidadosa regulamentação da participação da engenharia estrangeira em empreendimentos no país, estabelecendo-se condições prévias de reciprocidade nas relações bi ou multilaterais, requisitos para a transferência de tecnologia através de parcerias que efetivamente a viabilizem, e isonomia nos encargos de qualquer natureza que assegure a igualdade na competição no mercado interno.

Uma atenção especial devem merecer as exportações de serviços de Engenharia, através de mecanismo de financiamento de estudos e projetos de empresas brasileiras no exterior, capazes de alavancar a exportação de outros serviços e bens produzidos no país, a exemplo de programas semelhantes existentes nos países desenvolvidos (TDA norte-americano, JICA japonês, GTZ alemão, CIDA canadense e outros). A empresa de Engenharia sempre especifica sistemas construtivos utilizados e equipamentos produzidos no seu país de origem.

Estes são alguns componentes de uma urgente política de revalorização da engenharia brasileira que submetemos aos candidatos à presidência da República.

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