A integração econômica da América do Sul, um objetivo da política externa
brasileira, caminha a passos mais rápidos do que se poderia esperar, tendo o
Brasil como espaço integrador e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES) como mola principal da articulação, diz Carlos Lessa presidente
do banco.
Lessa é um economista que pensa muito além do horizonte financeiro, conhece a
tecnocracia do BNDES, do qual foi o primeiro diretor da área social, no governo
Sarney. Agora como presidente do maior banco de fomento da América Latina, está
imerso e entusiasmado com manobras geopolíticas. Diz ele:
-- Nossas melhores oportunidades estão na Venezuela. A atuação da diplomacia
brasileira, incentivando as negociações entre o presidente Chávez e a oposição e
criando o Grupo de Amigos da Venezuela, consolidou a aproximação entre os
governos dos dois países. Querem comprar de nós equipamentos pesados, alimentos,
produtos petroquímicos, uma empresa brasileira está construindo o metrô de
Caracas e a ponte sobre o Rio Orenoco, obras que representam mais de um bilhão
de dólares. Há várias negociações entre a Petrobrás e a PDVSA, e o presidente
Chávez já fala de uma empresa petrolífera continental. Não há, nesses negócios,
risco de calote. A Venezuela tem uma tradição de mais de 90 anos de pagamentos
pontuais de suas obrigações internacionais.
Aliança com andinos cria megabanco no
continente
A Corporação Andina de Fomento (CAF) é o equivalente do BNDES para a região
andina, apesar de seus financiamentos serem de 35% a 40% menores. O Brasil tem
2,5% do capital da CAF e pretende aumentar para 20% essa participação,
tornando-se o maior acionista. Atuando juntos, os dois bancos serão a grande
fonte de financiamentos de projetos de integração continental, independentemente
do BID e do Banco Mundial, que segundo a avaliação brasileira, não se interessam
pela integração. Diz Lessa:
-- A reputação técnica da CAF é excelente e tem cerca de 200 projetos de
integração em carteira: desde uma ponte de US$ 40 milhões no Peru até a
construção gigantesca de duas hidroelétricas no Rio Madeira, que tornaria o rio
navegável o ano inteiro e abriria uma grande rota de exportação para os grãos da
Amazônia Ocidental e custaria o equivalente a Itaipu. Em junho, promoveremos no
Rio um seminário conjunto para apresentar esses e outros projetos, entre eles a
estrada entre Cochabamba e Cuiabá. Com a Bolívia, temos de desatar o nó do
contrato de compra do gás boliviano, que tem de ser renegociado. Onde já se viu
o único comprador possível de uma mercadoria, que é o Brasil, assinar um
contrato no qual todas as vantagens são dadas ao vendedor?
Banco tem como alvo integração com a África
Carlos Lessa constata que a economia Argentina está se recompondo e o Brasil
negocia um Convênio de Crédito Recíproco (CCR) por meio do qual as exportações e
importações entre os dois países seriam garantidas pelos seus respectivos bancos
centrais, uma caixa de compensação, desinibindo as transações e prescindindo da
intermediação do dólar.
E há ainda o Atlântico Sul. Lessa tem conversado com Lopo do Nascimento, um
dos líderes históricos do MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola),
deputado e candidato à Presidência da República. Considera-o um homem
excepcionalmente culto e muito favorável à aproximação com Brasil. Diz
Lessa:
-- A reconstrução de Angola depois de tantos anos de guerra civil, requer a
importação de quase tudo, desde alimentos e remédios até a sofisticada
tecnologia de exploração de petróleo em águas profundas, que a Petrobrás detém.
Requer, sobretudo, a formação de quadros médios e profissionais. O Lopo do
Nascimento nos solicitou duas mil bolsas de estudo nas 55 universidades federais
que temos. Duas mil, acho que não dá. Mas mil é possível de se encontrar. Essas
vagas são muito importantes, porque representarão a formação da elite angolana
do futuro, com forte predisposição a se aproximar do Brasil. Estamos também
contribuindo para reorganizar a aviação civil do país, como já contribuímos para
a criação da Marinha da Namíbia. Uma estreita ligação com Angola nos dará um
excelente ponto de apoio para desenvolver nossa presença nos demais países da
África sub saariana. Como vê, os planos são muitos e o trabalho é intenso.