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O Cirurgião e a Engenharia de Transmissão de Energia

Por Ronaldo Telles Nunes Magalhães - Engenheiro Consultor Ronama Engenharia Ltda.

As empresas de projeto e engenharia consultiva, voltadas ao segmento de transmissão de energia, passam por um momento de extrema dificuldade para continuar mantendo suas atividades empresariais e as reservas técnicas profissionais. que estão cada vez mais escassas e fragmentadas. Os programas de demissão voluntária das concessionárias estaduais e federais, que foram privatizadas, geraram um sem número de autônomos e cooperativas de engenharia que, estimulados a uma concorrência predatória por alguns dos novos investidores do setor de energia, criaram um ambiente com forte desnivelamento tecnológico e comercial. Aliado a este quadro, as empresas contratantes dos referidos serviços elegeram o critério de menor preço como, praticamente, o único parâmetro para seleção dos seus fornecedores. Tal postura, além de trazer em seu bojo um risco potencial, equivale, na prática, contratar os serviços de um cirurgião pelo menor preço ofertado entre os seus pares. A competência parece não estar tendo o merecido peso nas decisões empresariais, até que num futuro próximo as eventuais seqüelas ou efeitos colaterais comecem a surgir, levando à reflexões mais profundas sobre a questão.

A gênese da crise tem porém outros componentes. A concessão de novas linhas de transmissão, despertou o espírito imediatista de algumas empresas. Estas, ao invés de aplicarem novas soluções de engenharia aos seus sistemas de transmissão, preferiram utilizar integralmente, ou com pequenas modificações, os projetos já existentes das antigas concessionárias estatais ou, nacionalizar projetos alienígenas. Assim sendo, o tão esperado espraiamento e os benefícios

tangíveis da nova política de recuperação do setor elétrico frustraram as expectativas das empresas de projeto e engenharia consultiva, que não puderam contabilizar lucros, desenvolvimento técnico e em muitos casos, nem mesmo a manutenção dos seus funcionários.

O cenário configurado inibiu a demanda por novos profissionais e já acarretou reflexos em segmentos mais distantes do foco da questão. Nas universidades onde são raros os cursos de especialização orientados à engenharia de transmissão, o espírito de pós-clímax, decorrente das políticas oscilantes de desenvolvimento e de indefinições no aperfeiçoamento do modelo para o setor elétrico, permeou a aspiração de futuros profissionais, interrompendo ou reduzindo a saudável criação de uma comunidade técnica capaz de assimilar e enfrentar os desafios que se farão presente num futuro próximo. Vive-se, portanto, um momento de autofagia cujo ciclo perverso deverá ser interrompido sob pena de aniquilar uma área de engenharia que já foi modelo e que atingiu um nível de excelência comparável ao dos países mais desenvolvidos. No limite, uma visão indesejável e pessimista do quadro delineado poderia ensejar a importação de tecnologias e profissionais, tornando rarefeito um patrimônio nacional, tecnológico, e profissional, amealhado em décadas de trabalho produtivo.

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