As empresas de projeto e
engenharia consultiva, voltadas ao segmento de transmissão de energia, passam
por um momento de extrema dificuldade para continuar mantendo suas atividades
empresariais e as reservas técnicas profissionais. que estão cada vez mais
escassas e fragmentadas. Os programas de demissão voluntária das concessionárias
estaduais e federais, que foram privatizadas, geraram um sem número de autônomos
e cooperativas de engenharia que, estimulados a uma concorrência predatória por
alguns dos novos investidores do setor de energia, criaram um ambiente com forte
desnivelamento tecnológico e comercial. Aliado a este quadro, as empresas
contratantes dos referidos serviços elegeram o critério de menor preço como,
praticamente, o único parâmetro para seleção dos seus fornecedores. Tal postura,
além de trazer em seu bojo um risco potencial, equivale, na prática, contratar
os serviços de um cirurgião pelo menor preço ofertado entre os seus pares. A
competência parece não estar tendo o merecido peso nas decisões empresariais,
até que num futuro próximo as eventuais seqüelas ou efeitos colaterais comecem a
surgir, levando à reflexões mais profundas sobre a questão.
A gênese da crise tem porém outros componentes. A concessão de
novas linhas de transmissão, despertou o espírito imediatista de algumas
empresas. Estas, ao invés de aplicarem novas soluções de engenharia aos seus
sistemas de transmissão, preferiram utilizar integralmente, ou com pequenas
modificações, os projetos já existentes das antigas concessionárias estatais ou,
nacionalizar projetos alienígenas. Assim sendo, o tão esperado espraiamento e os
benefícios
tangíveis da nova política de recuperação do setor elétrico
frustraram as expectativas das empresas de projeto e engenharia consultiva, que
não puderam contabilizar lucros, desenvolvimento técnico e em muitos casos, nem
mesmo a manutenção dos seus funcionários.
O cenário configurado inibiu a demanda por novos profissionais e
já acarretou reflexos em segmentos mais distantes do foco da questão. Nas
universidades onde são raros os cursos de especialização orientados à engenharia
de transmissão, o espírito de pós-clímax, decorrente das políticas oscilantes de
desenvolvimento e de indefinições no aperfeiçoamento do modelo para o setor
elétrico, permeou a aspiração de futuros profissionais, interrompendo ou
reduzindo a saudável criação de uma comunidade técnica capaz de assimilar e
enfrentar os desafios que se farão presente num futuro próximo. Vive-se,
portanto, um momento de autofagia cujo ciclo perverso deverá ser interrompido
sob pena de aniquilar uma área de engenharia que já foi modelo e que atingiu um
nível de excelência comparável ao dos países mais desenvolvidos. No limite, uma
visão indesejável e pessimista do quadro delineado poderia ensejar a importação
de tecnologias e profissionais, tornando rarefeito um patrimônio nacional,
tecnológico, e profissional, amealhado em décadas de trabalho
produtivo.