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A infra-estrutura como mola propulsora do desenvolvimento
Por Angelo Vian - Presidente Diretoria Nacional da ABCE – Associação Brasileira de Consultores de Engenharia
Uma infra-estrutura moderna e eficiente, no mundo atual e “globalizado”, é uma das condições mais determinantes para o desenvolvimento sustentável e consistente, inclusive nos países que podem oferecer as mais promissoras oportunidades naturais.
1. O desenvolvimento social e econômico de uma nação supõe, necessariamente, que o país disponha de uma infra-estrutura física adequada, em bom estado de conservação, com correta operação, e em permanente expansão, esta cuidadosamente planejada.
A fim de que a infra-estrutura seja moderna, eficiente e competitiva, é necessária a participação competente da “engenharia” em todas as fases da sua realização.
E, aqui, não cabe uma “engenharia” qualquer, “importável”, mas, sim, a engenharia nacional, conhecedora da problemática especifica do nosso país e, se for o caso, inclusive capaz de adaptar às nossas peculiaridades as novas e mais convenientes tecnologias.
2. Tal infra-estrutura supõe o atendimento aos diversos requisitos de qualidade e confiabilidade, compreendendo, por exemplo, os sistemas de:
2.1. TRANSPORTES (terrestre, aéreo, hidroviário e marítimo)
Sistema de transportes compatível com as necessidades do país – ferrovias, hidrovias, rodovias, metrovias, portos e aeroportos – para proporcionar o deslocamento seguro de pessoas e mercadorias, e o escoamento da produção; para reduzir custos de produtos agrícolas e industriais no mercado interno, com aumento da competitividade dos produtores brasileiros no mercado externo.
Além das deficiências do sistema existente, a falta de uma logística de transportes continua sendo um gargalo para a circulação de mercadorias no país e para a exportação, especialmente da produção agrícola.
2.2. ENERGIA (energia elétrica, petróleo, gás e outros energéticos)
Energia com qualidade e disponibilidade garantidas, abundante e barata, para viabilizar investimentos públicos e atrair investimentos privados em empreendimentos produtivos, especialmente no setor industrial.
2.3. RECURSOS HÍDRICOS (uso da água – não compreendendo, neste caso, a geração de energia elétrica)
Saneamento básico universalizado (um direito de cidadania), como requisito essencial para a qualidade de vida da população e para a redução dos custos dos programas de saúde pública.
2.4. TELECOMUNICAÇÕES (telefonia, telemática, teleinformação e outros meios de todos os tipos)
Um sistema de telecomunicações abrangente e moderno, cobrindo todo o território brasileiro, é um fator essencial – e imprescindível – para a integração nacional e para a inserção definitiva do país no mercado internacional.
3. Existem, outrossim, os demais sistemas de infra-estrutura básica, primordiais para o desenvolvimento de um país, nos quais, talvez, a participação da engenharia não parece ser, à primeira vista, tão essencial (pelo menos, não à primeira vista), como por exemplo o da EDUCAÇÃO e o da SAÚDE.
Outros tipos de infra-estrutura resultam mais de determinadas políticas nacionais, isto é, de diretrizes governamentais de desenvolvimento, tais como a infra-estrutura industrial (POLÍTICA INDUSTRIAL), incluindo nesta definição a pesquisa, a extração e o beneficiamento de recursos minerais etc.
Certamente, outro sistema de infra-estrutura de suma importância para o desenvolvimento nacional é aquele atinente à POLÍTICA, embora este sistema não seja, em princípio, dependente da “engenharia”.
De qualquer forma, seja qual for a atividade econômica, industrial ou não, a disponibilidade de uma infra-estrutura eficiente interfere, de forma decisiva, para o sucesso dos empreendimentos, determinando seus níveis de competitividade.
O papel – e o dever – da Consultoria de Engenharia
4. Todas as áreas da infra-estrutura aqui descritas, a fim de assegurar as condições básicas para o pleno desenvolvimento da nação, surgem de estudos e projetos de engenharia, desenvolvidos por empresas consultoras devidamente qualificadas, com apropriada capacidade técnica, econômico-financeira e gerencial, cuja atividade-fim está voltada para os já tão bem conhecidos serviços de Consultoria de Engenharia:
- Planejamento, inventários de recursos hídricos, vegetais e minerais, estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental – os quais antecedem e embasam as decisões sobre investimentos públicos e privados;
- Projetos de engenharia, básicos e executivos;
- Supervisão e gerenciamento de programas, empreendimentos e obras;
- Assessoria técnica especializada de variadas naturezas.
5. Dentre outros empreendimentos de infra-estrutura do país, as empresas consultoras têm planejado, projetado e gerenciado a execução de:
- Usinas de geração hidro e termelétricas, linhas de transmissão e sistemas de distribuição de energia elétrica, sistemas alternativos de geração (eólica, biomassa etc.);
- Instalações e estruturas de exploração, produção, transporte e refino de petróleo; exploração, transporte e distribuição de gás natural;
- Rodovias, ferrovias, hidrovias, metrovias, portos, aeroportos e toda a gama de obras-de-arte pertinentes a esses diversos sistemas de transportes;
- Sistemas de irrigação, de saneamento básico e respectivas estações de tratamento; redes de distribuição de água e coleta de esgotos sanitários e resíduos líquidos e sólidos;
- Estudos de impacto ambiental e projetos de proteção ao meio-ambiente.
6. As empresas brasileiras de engenharia sempre estiveram capacitadas para atender às demandas de planejamento, projetos, supervisão e gerenciamento da execução de empreendimentos públicos e privados e, também, na manutenção e expansão da infra-estrutura do país; e estão na origem do que hoje constitui esse enorme patrimônio nacional em todas as áreas anteriormente relacionadas. Foi, sem dúvida, por terem sido empresas brasileiras de engenharia que planejaram e executaram os empreendimentos aqui implantados, que tornou-se possível neles maximizar o conteúdo nacional de bens e serviços – principal fator de indução para o desenvolvimento das diversas cadeias produtivas e, então, do país como um todo.
O cenário de hoje, para a engenharia brasileira, não é favorável
7. Na conjuntura atual, a situação das Empresas de Consultoria de Engenharia é preocupante, destacadamente em face da dificuldade de atualização tecnológica dessas empresas por debilitação de suas próprias capacidades econômico-financeiras, resultante da redução drástica da demanda de serviços, agravada seriamente pela freqüente irregularidade de pagamentos por parte de contratantes do setor público.
Por outro lado, os empreendedores privados utilizam-se de seu grande poder barganha para forçar o aviltamento dos preços dos serviços de Consultoria de Engenharia – talvez acreditando que, ao minimizar a menor parcela (aproximadamente 5%) do investimento (justamente a parcela destinada ao planejamento e ao projeto do empreendimento), isto resulte em uma economia global. O que ocorre – é sabido – é exatamente o contrário!
Como conseqüência desse cenário, há o risco de que empresas já estruturadas saiam do mercado, perdendo-se a experiência de equipes multidisciplinares e já integradas.
Assim, pode-se perder o conhecimento e a capacitação acumulada que constituem, por si só, uma das parcelas mais importantes do patrimônio tecnológico brasileiro.
O que se pode fazer para solucionar, ou abrandar, um cenário tão desfavorável
7. Reverter esse quadro e dotar o país de uma engenharia nacional saudável, competitiva e capaz de contribuir para a independência tecnológica da nação, supõe recuperar a capacidade técnica e gerencial das empresas brasileiras de Consultoria de Engenharia.
A Engenharia Consultiva, juntamente com as demais Engenharias (tais como a de construção e montagem de empreendimentos, a de fabricação de equipamentos e outras), é um dos suportes do patrimônio tecnológico da nação, ao lado das Universidades e Centros de Pesquisa. Esses três atores formam o tripé que, se bem articulado, será capaz de conduzir o processo integrado da retomada sustentável do desenvolvimento tecnológico, como base para o desenvolvimento econômico e social do país.
Sem a contribuição, inclusive da Engenharia Consultiva, esse tripé carece de algumas de suas funções mais importantes: a absorção, a consolidação e a disseminação (por multiplicidade e capilaridade) de novas tecnologias.
Na área acadêmica, a Engenharia se ressente do crescente desinteresse dos jovens pela profissão, seja pela falta de perspectivas de emprego, seja pela precariedade dos recursos para uma formação de nível equivalente ao das universidades estrangeiras – outro obstáculo para uma inserção competitiva no mercado de trabalho, agora sem fronteiras.
Certamente, é chegado o tempo propício para uma profunda revisão dos currículos universitários, com a integração de mão dupla entre Universidade e Empresas de Engenharia.
Trata-se, inclusive, de levar em conta a experiência da empresa na própria formação acadêmica e de incentivar a abertura de oportunidades para a presença do estudante na empresa, na etapa que precede a sua próxima inserção no mercado de trabalho.
E, reciprocamente, enriquecer o aparelhamento das empresas com o conhecimento acadêmico.
8. Os investimentos na manutenção e expansão da infra-estrutura, em qualquer país, constituem uma das formas mais eficientes para a geração de empregos em todos os níveis profissionais, com a alocação de grandes contingentes de pessoal que, pela inclusão no mercado de trabalho, encontram oportunidades de treinamento e capacitação profissional.
Neste sentido, é de se destacar que, somente através de projetos desenvolvidos no Brasil, pela engenharia nacional, com especificações técnicas de caráter autóctone, é que se conseguirá que os investimentos em sistemas de infra-estrutura sirvam de fomento para o crescimento da indústria local, nomeadamente nos segmentos de maior valor agregado, tais como, por exemplo, o de construção e montagem de empreendimentos e o da fabricação de equipamentos.
Não obstante ser limitada a capacidade de aportar recursos por parte do Estado – razão pela qual começam a surgir empreendimentos (inclusive nas áreas de infra-estrutura básica) calcados na modalidade PPP (Parceria Público-Privada) – é nosso papel fazer com que todos os investimentos, nomeadamente aqueles baseados nos fundos governamentais (públicos), se revertam ao máximo em desenvolvimento interno, o que só é factível através da forte participação da Engenharia Nacional.
Como conclusão:
É impossível deixar de reconhecer que uma infra-estrutura moderna e eficiente é um fator primordial para o desenvolvimento sustentável e consistente do país.
É também impossível imaginar que se possa prescindir de uma Engenharia Nacional – como elemento estratégico e fortemente participativo – para a ampliação, implantação e manutenção desta infra-estrutura.
Palestra apresentada no 5º CONSE – Florianópolis, SC - Novembro/2003
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