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A
lei do Bode
Ênio Padilha
Enviada por Álvaro Pitta, IGUATEMI
A lei do Bode, você já deve ter ouvido falar dela, é uma
fábula cuja origem está perdida no tempo. Uma de suas versões
dá conta de que, na União Soviética, logo depois da revolução
comunista, muitas famílias eram obrigadas a morar juntas numa mesma casa,
em condições pouco agradáveis, com pouco espaço
e nenhuma privacidade. Isto, naturalmente, produzia muito descontentamento e
severas reclamações. Esse descontentamento e essas reclamações
ameaçavam a governabilidade e era preciso resolver esse problema.
Formou-se uma comissão que fez dezenas de reuniões para debater
o assunto e elaborar um projeto do que seria a solução do problema.
Quando, depois de muitos meses, chegaram a uma conclusão, apresentaram
a proposta ao governo, que a considerou genial e tratou de colocá-la
em prática rapidamente. Tratava-se de uma lei que obrigava que, em cada
casa fosse colocado um bode, que passaria a dividir o espaço, os cuidados
e os alimentos com todos os moradores.
O bode, como se sabe, é um bicho fedorento, por conta de glândulas
na base dos chifres, que exalam um cheiro forte e muito ruim. A vida dos cidadãos,
que já era medonha, ficou pior ainda e o descontentamento e as reclamações
aumentaram muito.
Depois de algumas semanas tendo que suportar um bode na sala, os cidadãos
viram uma luz no fim do túnel quando o governo aceitou, finalmente, conversar
a respeito e negociar uma solução para o problema.
Novas comissões foram formadas (em ambos os lados) e as negociações
começaram, com o governo jogando pesado na defesa da manutenção
do bode na sala.
Quando as coisas pareciam estar chegando ao limite, finalmente, o governo cedeu.
E revogou a tal lei, autorizando as pessoas a retirar o bode de dentro de casa.
Foi uma festa! Houve muita comemoração! O povo ficou muito feliz!
Houve até quem ressaltasse, em discurso, a lucidez e a generosidade do
governo em permitir a revogação da tal lei.
Ninguém mais falava das condições sub-humanas, da falta
de espaço ou de privacidade que havia nas casas ocupadas por várias
famílias. Sem o bode a situação ficou muito boa...
Brasil, 2004. Engenheiros, arquitetos, agrônomos, médicos, advogados,
dentistas e milhares de outros profissionais liberais, contrariando o bom senso,
mantêm funcionando empresas fornecedoras de serviços, que pagam
impostos escorchantes, sobre lucros "presumidos" (sabe Deus com base
em quê) de 32%. Esses empresários (também não consigo
entender o porquê) não podem enquadrar suas empresas no SIMPLES
ou em qualquer outra forma de obter facilidades tributárias. Nos municípios,
têm as mais altas taxas de alvarás de funcionamento e pagam ISQN
ou ISS com alíquotas verdadeiramente abusivas... É desanimador
manter as portas abertas e gerar empregos.
Aí, quando se imagina que o governo vai pensar em alguma coisa para resolver
esse problema, recebemos pelas costas uma Medida Provisória aumentando
ainda mais os impostos (presumindo que o nosso lucro é de 40%), inviabilizando
a criação de muitos empregos, complicando a vida de muitos e atirando
muita gente na clandestinidade.
A gritaria foi geral. Não poderia ser diferente. Entidades de classe,
conselhos profissionais e políticos da oposição abriram
fogo contra esse assalto.
E o governo jogou duro! Agora o governo acende uma luz no fim deste túnel.
Começa a dar sinais de que pretende rever o assunto. Talvez até
revogar a Medida Provisória. Deixar as coisas como estavam: um inferno!
E todos vamos ficar muito felizes!
É a lei do Bode
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