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Ética e preços na Consultoria

 

A corrupção é comparável a um câncer planetário. Metástases se espalham por todos os campos de atividade profissional, funcional e econômica, ameaçam a saúde de quase todas as nações ricas e pobres.

Um espaço privilegiado para o aparecimento silencioso desse câncer são os programas e projetos de governo que envolvem importantes investimentos públicos, nas mais diversas áreas.

A área mais eivada de suspeições, muitas vezes injustamente, é a dos investimentos públicos em grandes obras de infra-estrutura. Nada obstante a injustiça das generalizações, é verdadeira, muitas vezes comprovada e nem sempre punida, a má aplicação do dinheiro público em obras de infra-estrutura, gerando enriquecimento ilícito de figuras importantes do cenário nacional.

A vulnerabilidade do sistema que comanda os investimentos públicos em infra-estrutura repousa em fissuras conhecidas: falta de estudos de viabilidade consistentes e projetos de engenharia de alta qualidade, com especificações precisas, orçamentos realistas suficientemente detalhados, elevada capacidade e confiabilidade da supervisão ou gerenciamento de execução de obras e instalações.

Este é o campo da Consultoria de Engenharia, o que faz desta atividade o instrumento natural e imprescindível da integridade ética nos investimentos públicos.

Como em qualquer grupo humano ou empresarial haverá sempre os que não têm compromisso com valores éticos competindo com a folgada maioria dos que não transigem com os requisitos de integridade e rigor profissional em sua prática pessoal ou funcional.

Para competir com aqueles que não negociam valores éticos, a arma dos arrivistas é a tentadora oferta de preços irrisórios, baseada na certeza de renegociações irregulares durante a execução do contrato, a alocação de profissionais menos qualificados, ou a garantia de cumplicidades que permitam viabilizar sua proposta inexeqüível por artifícios conhecidos, transformando prejuízo em lucros compartilhados, com a conseqüente renúncia à qualidade do trabalho.

Tais desvios anti-éticos configuram uma concorrência desleal. É impossível a competição de preços entre empresas de diferentes níveis de compromisso ético e responsabilidade profissional.

Estudos e projetos de engenharia de baixa qualidade, contratados com base no menor preço, resultam no aumento do custo das obras e de sua manutenção e conservação, na precária qualidade do empreendimento e dos serviços oferecidos aos seus usuários.

Ao contrário, serviços de Consultoria de Engenharia contratados por preços correntes de mercado, com empresas que além do seu currículo técnico apresentam provas evidentes de comportamento ético francamente reconhecido, resultam na otimização do investimento público ou privado.

O contratante ou investidor deve ser levado a compreender que o custo dos estudos, projetos e gerenciamento de um empreendimento representam uma parcela pouco relevante do investimento a ser feito, resultando redução de custos na sua execução, sempre bem maior que o custo da Consultoria de elevado nível técnico utilizada, além das anteriores considerações sobre a qualidade do empreendimento.

Nas chamadas para licitações ou convites, as empresas com as qualificações técnicas e éticas requeridas somente se apresentarão se os limites de preços e as condições de competição forem claramente capazes de impedir a concorrência desleal ou a imposição de preços incompatíveis com a qualidade dos trabalhos a executar.

Para isto, os orçamentos de referência preparados pelo investidor devem ser realistas, precisos e transparentes, enquanto os critérios para a seleção da Consultora se basearão numa composição ponderada das avaliações de suas propostas técnica e de preços, com maior peso evidentemente para a técnica. Esta é a prática internacional, contemplada na legislação brasileira.

A ABCE preconiza determinados critérios para a avaliação de propostas técnicas e o uso de uma fórmula clara para a atribuição de pontos na avaliação da proposta de preços, esta última valorizando a maior aproximação aos preços de mercado, definidos pela média dos preços propostos pelos licitantes tecnicamente qualificados.

A partir destas considerações, torna-se evidente a absoluta impropriedade da seleção de Consultores pelo critério do menor preço, ainda que entre empresas tecnicamente pré-qualificadas, em vista do alto risco de práticas anti-éticas a que o baixo preço tende a induzir.

A contratação pelo critério da ponderação adequada entre qualidade técnica e o preço mais compatível com os do mercado atrairá as mais qualificadas empresas, comprometidas com princípios éticos inegociáveis, com a alocação e permanente capacitação dos seus melhores profissionais, a prática de remunerações justas, o uso de ferramentas de informática mais avançadas, com todos os benefícios antes apontados.

A ABCE incentiva seus membros e suas empresas filiadas a um forte empenho para a adoção, por seus clientes dos setores público e privado, das recomendações do Guia FEPAC* para a Seleção e Contratação de Serviços de Consultoria e o uso das metodologias de orçamentação oferecidas no seu Manual de Orçamentação de Serviços de Engenharia Consultiva.


É preciso um esforço contínuo para demonstrar e convencer os clientes da Consultoria de que o menor preço é sempre o pior preço. Muitos já sabem, após avaliação de fracassos irremediáveis.

Helio Amorim.

*FEPAC é a Federación Panamericana de Consultores, cuja Secretaria Geral é administrada pela ABCE.
O Manual está disponível nos sites www.abceconsultoria.org.br ou www.fepac@fepac.org

 

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