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Calote da dívida pública já é real

Helio Amorim

O governo já assumiu a opção pelo calote da dívida. Não se assustem os credores externos. Tampouco os bancos nacionais que compram títulos do governo, a juros generosos que explicam os seus lucros estratosféricos. Essa parte da dívida pública é sagrada, garantida por um soberbo superávit primário que faz a equipe econômica explodir de orgulho no cenário planetário.

O calote perverso é o que extermina empresas e empregos no campo dos corajosos brasileiros fornecedores do governo.

No caso exemplar da engenharia e no campo especial do Ministério dos Transportes, as construtoras e empresas de engenharia de projetos não recebem um centavo de suas contas desde dezembro do ano passado. Os créditos de várias dessas empresas ultrapassam algumas vezes o seu capital e as demissões são massivas. O calote é mortal. Como mortais são as crateras nas rodovias brasileiras.

O presidente da República visitou obras no sul, no início do ano, e discursou. Desafiou as empresas de engenharia a trabalharem 24 horas por dia para dar conta das obras a serem executadas com os recursos que estava liberando. Cinco meses depois, as liberações atingem o fantástico montante de 0,2% das dotações autorizadas, tendo as empresas recebido zero reais e zero centavos neste ano. O calote atinge todos os serviços executados desde dezembro pelos que acreditaram.

Como não há empresas estrangeiras fornecendo coisa alguma para os órgãos do Ministério (talvez inscrito no cadastro internacional como cliente de alto risco), o calote é puramente doméstico e não machuca o prestígio de bom pagador que o governo exibe extra-fronteiras. Mas o desemprego de engenheiros e técnicos estourou todas as previsões, as empresas estão demitindo e se tornando siglas virtuais, crucificadas cruelmente, descendo à mansão dos mortos, na esperança da ressurreição no terceiro dia. Ou na páscoa eleitoral.

 

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