Presidente da ABCE defende criação de fundo para garantir sustentabilidade do setor de consultoria*
Lindolpho Souza
Presidente do Conselho Diretor da ABCE
O presidente da Associação Brasileira de Consultores de Engenharia (ABCE), Lindolpho Corrêa de Souza, proferiu na reunião do Conselho Diretor do dia 13 de novembro a palestra "O desafio do fortalecimento das empresas de engenharia, sua capacitação tecnológica e sustentabilidade".
Segundo o executivo, a área de consultoria tem um importante potencial alavancador de exportações de bens e serviços, especialmente na construção pesada. Ele revelou que sua entidade está desenvolvendo gestões junto ao governo para a criação de um fundo para contratação de serviços de consultoria, nos moldes dos existentes nos países exportadores. "A consultora especifica nos seus projetos bens e serviços que o país produz e pode exportar", disse.
O presidente da ABCE explicou que o principal campo de trabalho das empresas de consultoria está na execução de estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental e na realização de inventários e levantamentos de recursos minerais, florestais e demais estudos que permitam a tomada de decisões sobre investimentos públicos e privados. Ele afirmou que as empresas do setor também realizam projetos básicos e executivos de engenharia e arquitetura e a supervisão e o gerenciamento de programas de investimentos e de execução de obras.
– A ABCE é o lugar de encontro de empresas para o intercâmbio de experiências, identificação de obstáculos, gargalos e problemas a enfrentar de forma coletiva institucional. Também oferecemos estudos e proposições para o aperfeiçoamento da legislação e das práticas adotadas para a utilização dos serviços de consultoria. Além disso, a entidade assume a representação das empresas em ações administrativas e judiciais contra irregularidades praticadas por contratantes de serviços ou agentes públicos – disse.
RELAÇÃO DE PARCERIA
O engenheiro destacou que a ABCE, que está comemorando 40 anos de fundação, sempre manteve uma "relação de parceria muito forte com o Clube".
– Um registro importante foi o evento que realizamos no BNDES há cerca de dois anos, que marcou as áreas de engenharia e infra-estrutura. A engenharia, sempre que chamada, respondeu afirmativamente, mas a desestruturação ocorrida na década de 90 está tornando extremamente difícil a reestruturação do setor – lamentou.
Lindolpho Corrêa de Souza explicou que, na década de 60, as peculiaridades e a importância estratégica
das empresas de consultoria ainda eram pouco reconhecidas.
– Foram pioneiras as empresas de transportes, setor em expansão nos anos 60. Essas empresas projetaram o atual sistema viário brasileiro dotado de importantes obras de arte especiais. O setor público se constituía
no maior contratante de consultoria, representando mais de 80% do mercado das
empresas.
O executivo lembrou que os anos 70 e 80 marcaram a expansão do mercado de consultoria de engenharia, quando várias empresas atuaram por mais de duas décadas com contingentes de milhares de profissionais. No final da década
de 80, disse, a atividade de consultoria atingiu seu mais elevado patamar de
atividades.
– Um conjunto de 200 consultoras empregava 60 mil funcionários. O setor elétrico era então o de maior demanda. No início da década de 90, o governo reduziu drasticamente o volume de investimentos públicos, iniciando-se uma forte retração na atividade de consultoria. O mesmo governo decretou, sem consulta aos demais poderes, o fim da reserva de mercado da engenharia, restrito desde os anos 70 a empresas brasileiras de capital nacional – afirmou.
PONTO DE MUTAÇÃO
O presidente da ABCE contou que as consultoras brasileiras superaram o impacto
inicial da "súbita e inesperada mudança de regras" e passaram a atuar num mercado aberto à competição estrangeira. Segundo ele, ao mesmo tempo foi introduzido o conceito de gestão da qualidade que, ao longo de quase uma década,
consolidou-se como objetivo das empresas para atuar num mercado aberto
e altamente competitivo.
– As empresas iniciaram processos de capacitação para a certificação da qualidade no sistema ISO. Tem início a revolução eletrônica. Desaparecem das empresas os equipamentos elétricos, pranchetas, telex e desenhistas. Foram instaladas computadores e produzidas ferramentas eletrônicas para todas as atividades tradicionais da consultoria. Através das redes de comunicação, os projetos hoje circulam pela Internet. A passagem dos anos 80 para 90 pode ser considerada o ponto de mutação da consultoria de engenharia, revolucionando conceitos, mudando hábitos, comportamentos e estruturas empresariais – analisou.
O engenheiro entende que o risco de futuro colapso do sistema elétrico aponta para a urgência de pesados investimentos em geração e transmissão de energia. Para ele, os leilões que estão programados para concessões de novas hidrelétricas exigirão estudos e projetos de engenharia "de vulto apreciável". Além disso, analisou, o programa de ampliação e modernização de portos e aeroportos já representa fonte importante de trabalhos de consultoria de engenharia. A limitação dos investimentos sociais na última década, disse, provocaria igualmente pressões por ampliação dos programas de educação, saúde e habitação.
CAPACIDADE TÉCNICA
Lindolpho Corrêa de Souza também sustentou que a seleção da empresa de consultoria deve basear-se prioritariamente na avaliação da sua capacidade técnica. Para o consultor, o preço dos serviços de consultoria é irrelevante frente ao montante de investimentos que são feitos com base nas indicações
dos projetos.
– O preço deverá ser considerado com peso menor na avaliação das propostas de serviços de consultoria. Não se pode aceitar processos de licitação de consultoria de engenharia por simples competição de preços. Ultimamente surgiu a prática intolerável do pregão eletrônico de preços para contratar serviços de engenharia – protestou.
O executivo reclamou que as empresas de consultoria estão submetidas atualmente a um tratamento fiscal-tributário incompatível
com seu perfil e a realidade do mercado.
– São retenções de impostos sobre o faturamento por alíquotas incidentes sobre
lucro presumido de 32% contra a realidade que se situa em torno de 10%.
|