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O gargalo dos estudos e dos projetos

Eng. Paulo Godoy
Presidente da ABDIB

O governo federal completou a legislação necessária para tirar as parcerias público-privadas (PPP) do papel. Em agosto, publicou as regras de contabilidade e transparência que uma administração pública deve seguir quando assinar um contrato dessa natureza. Se o arcabouço legal está pronto, falta agora imprimir velocidade e eficiência na gestão para licitar os empreendimentos, com especial atenção na elaboração dos estudos e projetos, peças sem as quais nem as audiências públicas nem as análises dos investidores começam.
Os estudos e os projetos são o primeiro passo – talvez o mais importante – para a efetiva construção da infra-estrutura. O licitante e os investidores, por meio deles, analisam dados cruciais sobre o negócio, como fluxo de receitas em diversos períodos de operação, taxas de retorno ao capital aplicado em cenários diversos, necessidade de investimentos e de financiamento e formatos de licitação com melhor relação entre custo e benefício, entre outras variáveis. Os estudos ambientais determinam os impactos à natureza, a viabilidade e os gastos com a compensação enquanto os de engenharia apontam, entre outras coisas, quantidade e características de obras-de-arte – pontes, túneis etc – que um projeto vai requerer.
O problema atual, já percebido por diversos agentes em vários setores da infra-estrutura, é a ausência de projetos para concessão ou parcerias, com o nível de detalhamento que permita audiências públicas e a conseqüente licitação. Por isso, por exemplo, o governo federal ainda não conseguiu assinar nenhum contrato de PPP, pois, na maioria dos casos, os estudos e projetos estão ainda em preparação ou análise. Só recentemente as datas para a audiência pública do primeiro projeto federal – obras das BR-116 e BR-324 – foram marcadas. Em áreas como geração de energia, rodovias, petróleo e gás, as rodadas de concessão não têm sido feitas na velocidade e na quantidade necessárias porque não há estudos – inclusive os de inventário – e projetos para permitir a licitação das obras.
No setor de geração de energia, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), por exemplo, reservou cerca de R$ 150 milhões para elaborar inventários de bacias hidrográficas e estudos de viabilidade de aproveitamentos hidrelétricos em alguns rios das regiões Norte e Centro-Oeste. Os trabalhos consumirão entre quatro e cinco anos, prazo necessário para iniciativas desse porte. Isso mostra que os canteiros de obras que serão abertos a partir de 2010 precisam começar a ser estudados e detalhados já.
O que o Brasil precisa é de um verdadeiro banco de estudos e projetos para empreendimentos de infra-estrutura, com informações detalhadas a respeito da viabilidade técnica, ambiental, econômica e financeira, em várias áreas. As autoridades públicas precisam atentar a essa questão, reservando não somente orçamentos para tais responsabilidades como também articulando legislações e gestores em torno desse desafio.
Uma proposta que pode impulsionar positivamente a construção de uma biblioteca valiosa de estudos e projetos é a regulamentação de dispositivos já existentes nas leis de Concessões e de Parceria Público-Privada (PPP).
A sugestão refere-se aos artigos 21, da Lei 8.987, e 31, da Lei 9.074.
Com a regulamentação dos artigos mencionados, as empresas privadas poderiam sugerir e elaborar estudos por risco e ônus próprios, mediante autorização das autoridades públicas competentes. Se a importância e viabilidade da obra se confirmarem, os custos seriam ressarcidos posteriormente, pelo vencedor quando da licitação.
A infra-estrutura brasileira tem demonstrado sinais de saturação em vários setores. Com o crescimento econômico que todos almejam, é preciso expandir os sistemas já existentes, para que a insuficiência nas áreas de energia, transporte, saneamento e gás natural, entre outras, não sejam barreiras ao desenvolvimento. Em infra-estrutura, os empreendimentos são de longa maturação – demoram entre quatro e cinco anos, em média, para serem construídos. Por isso, as obras do futuro precisam começar com bastante antecedência. E os estudos, com mais antecedência ainda.

 

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